Queda histórica do rebanho bovino nos EUA abre oportunidade estratégica para o Brasil
O mercado global de carne bovina está passando por uma transformação significativa, com os Estados Unidos registrando o menor rebanho bovino desde a década de 1950. Atualmente, o país conta com aproximadamente 86,2 milhões de cabeças de gado, um número que reflete uma sequência de quedas contínuas desde 2019. Essa redução impacta diretamente a disponibilidade de bezerros e gado jovem para engorda, criando um cenário de oferta restrita que não se resolve rapidamente.
Impacto no mercado americano e oportunidades internacionais
Conforme destacado por Gustavo Junqueira, colunista da Veja e ex-secretário de Agricultura, a reconstrução de um rebanho bovino é um processo lento, que pode levar de cinco a sete anos. "Os Estados Unidos estão no menor rebanho desde a década de 50. Isso tem feito com que você tenha uma menor oferta de bezerros e de gado novo", afirmou. Com menos carne disponível, os EUA tendem a priorizar seu mercado interno na tentativa de conter os preços, especialmente da carne moída, que já atinge recordes históricos.
Esse movimento gera um vácuo em outros mercados internacionais, uma vez que os Estados Unidos consomem grande parte de sua própria produção. É nesse contexto que o Brasil emerge como um protagonista central, aproveitando a brecha para expandir sua participação no comércio global de carne bovina.
Vantagem brasileira em escala e presença estratégica
O Brasil possui uma vantagem competitiva notável em termos de volume. Enquanto o rebanho americano encolhe, o país sul-americano mantém cerca de 240 milhões de cabeças de gado, quase o triplo do número registrado nos Estados Unidos. Essa escala permite ao Brasil atender a grandes compradores internacionais, como a China, que absorve aproximadamente metade das exportações brasileiras de carne.
Além disso, a presença de empresas brasileiras no mercado americano reforça a posição estratégica do país. Junqueira lembra que 85% do abate nos EUA está concentrado em quatro empresas, duas das quais são brasileiras: JBS e Marfrig. Isso demonstra a força do Brasil na cadeia global de produção de carne, mesmo diante de barreiras tarifárias, como a taxa de 26% aplicada após o esgotamento das cotas de importação.
Desafio estratégico: além do volume
O próximo passo para o Brasil, no entanto, vai além da simples produção em larga escala. "O Brasil precisa sair da produção de volume e entrar na categoria de guardião da segurança alimentar mundial", explicou Junqueira. Em um cenário de preços elevados e oferta limitada, fatores como rastreabilidade, padrões ambientais e previsibilidade tornam-se cruciais para ganhar espaço no mercado internacional.
O país tem todas as condições para ocupar essa posição de liderança, investindo em:
- Rastreabilidade para garantir a origem e qualidade da carne.
- Padrões ambientais que atendam às demandas globais por sustentabilidade.
- Previsibilidade na produção e exportação, assegurando suprimentos consistentes.
Essa abordagem estratégica pode consolidar o Brasil como um fornecedor confiável e de alta qualidade, aproveitando a oportunidade única criada pela queda do rebanho bovino nos Estados Unidos.