Uma revolução silenciosa está acontecendo sob os pés de café no Sul de Minas Gerais. Ela não aparece em imagens de satélite nem em gráficos de produtividade, mas está no solo — mais precisamente, nos primeiros 20 centímetros dele. Nas Fazendas Caxambu e Aracaçu, em Três Pontas, a gestão do solo deixou de se basear apenas em análises químicas convencionais. Em parceria com a Biotrop e a Cooxupé, a propriedade realiza análises metagenômicas, que consistem em um mapeamento do DNA presente no solo, identificando fungos, bactérias e microrganismos responsáveis pela saúde e fertilidade da terra.
Ciência aplicada ao campo
A análise metagenômica é realizada em amostras coletadas na camada superficial do solo, onde se concentra a maior atividade biológica. Esses dados permitem identificar a diversidade e a abundância de microrganismos em cada talhão, orientando decisões estratégicas como a escolha de bioinsumos, o manejo da cobertura vegetal e a definição das espécies utilizadas nas entrelinhas. Os resultados laboratoriais reforçam a eficácia do sistema. A análise foliar comparativa entre diferentes tipos de cobertura evidencia uma complementaridade funcional importante: enquanto o mix de cobertura contribui para a fixação biológica de nitrogênio, áreas com braquiária atuam como reservatórios naturais de potássio. Essa combinação favorece o equilíbrio nutricional da lavoura e reduz a dependência de intervenções externas.
“Antes olhávamos para o solo e víamos apenas nutrientes. Agora olhamos e vemos vida. São coisas radicalmente diferentes”, resume Carmem Lúcia, conhecida como Ucha, responsável pela condução das fazendas. Guy Carvalho, agrônomo responsável, complementa: “Hoje, nossa preocupação não é apenas fornecer nutrientes para a planta, mas sustentar a vida que estrutura esse sistema. Falamos de construir fertilidade biológica, e isso passa por um manejo mais estratégico da cobertura do solo.” Os dados, validados por programas interlaboratoriais, confirmam a consistência do perfil nutricional da cobertura viva e sustentam a eficiência do manejo adotado.
Entrelinhas vivas: o laboratório a céu aberto
A fazenda mantém mais de 15 espécies de vegetação espontânea nas entrelinhas e 8 espécies plantadas nos talhões de mix de plantas. Nos talhões em renovação, 14 hectares já estão consolidados com mix nas entrelinhas desde 2025, com 100% de cobertura de braquiária mantida no primeiro trimestre de 2026. Essa cobertura viva não é decorativa: atua na descompactação do solo, prevenção de erosão, acúmulo de matéria orgânica e regularização microclimática — benefícios que alimentam diretamente o ecossistema microbiológico mapeado pela metagenômica.
A segunda medição de massa verde e seca, realizada em março de 2026, quantifica o aporte de matéria orgânica e a ciclagem de nutrientes devolvidos ao sistema — indicadores críticos monitorados pela Coordenadoria de Estratégia e Sustentabilidade, sob responsabilidade de Hellen Cristina Silva Gomes, em parceria técnica com a EPAMIG e a Cooxupé. O modelo adotado pelas Fazendas Caxambu e Aracaçu indica um caminho para a cafeicultura brasileira: substituir decisões baseadas em intuição por decisões baseadas em dados biológicos, transformando o solo de insumo passivo em ativo estratégico do negócio.
Sobre as Fazendas Caxambu e Aracaçu
Localizadas em Três Pontas, no Sul de Minas Gerais, as Fazendas Caxambu e Aracaçu são propriedades de um grupo familiar liderado por Carmem Lúcia Ucha. Cooperadas da Cooxupé e contando com a SMC como a mais importante parceria em seu projeto de exportação de cafés especiais, as fazendas combinam tradição cafeeira com práticas regenerativas voltadas à redução de emissões e ao aumento da biodiversidade. Esse cuidado reflete-se na qualidade dos cafés produzidos, reconhecida internacionalmente, com destaque para a conquista do primeiro lugar na categoria Natural no Cup of Excellence 2025, o maior concurso global de cafés de excelência, promovido no Brasil pela BSCA. A condução desse padrão de excelência sensorial está sob responsabilidade de Dionatan Almeida, campeão mundial de Cup Tasters, que lidera o trabalho de avaliação e refinamento sensorial da produção.
Consulte um agrônomo de confiança para orientações específicas.



