Sancetur recua e Prefeitura de SP busca nova licitação para linhas de ônibus da Transwolff
A apenas quatro dias de assumir oficialmente a operação das linhas de ônibus da Transwolff na capital paulista, a empresa Sancetur enviou um ofício à Prefeitura de São Paulo comunicando a impossibilidade de assumir plenamente a execução do contrato emergencial firmado com a gestão municipal. A informação foi confirmada por meio de uma nota oficial divulgada pela administração pública.
Diante desse cenário, a prefeitura anunciou que segue adotando todas as medidas necessárias para a publicação do edital destinado à concessão do serviço dos lotes D10 e D11, anteriormente operados pela Transwolff. Essas 133 linhas são responsáveis pelo transporte diário de aproximadamente 555 mil passageiros, um volume significativo que demanda atenção imediata das autoridades.
Contexto da intervenção e investigações criminais
A Sancetur já vinha operando essas linhas desde que a prefeitura decretou intervenção na Transwolff, empresa que se tornou alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo. As investigações apontam suspeitas de lavagem de dinheiro e favorecimento ao Primeiro Comando da Capital, o PCC.
As apurações indicam que o dinheiro utilizado para aumentar o capital da Transwolff poderia ter origem ilícita, com recursos provenientes de atividades criminosas. O esquema envolveria o uso de laranjas e CNPJs fantasmas, táticas comuns para ocultar a verdadeira procedência dos valores em processos de lavagem de capitais.
Em função dessas suspeitas, a Prefeitura de São Paulo abriu processo para rescindir os contratos da Transwolff ainda em dezembro de 2024. A defesa da empresa, no entanto, nega veementemente qualquer vínculo com o crime organizado, afirmando que não há comprovação de relações ilícitas e que contestará as decisões na Justiça.
Decisões judiciais conflitantes geram incertezas
A situação se complica com duas decisões judiciais distintas proferidas em dezembro de 2025 envolvendo a Transwolff. Por um lado, a Vara de Crimes Tributários e Organizações Criminosas determinou a suspensão das atividades da empresa, mantendo o afastamento dos réus da gestão e autorizando a prefeitura a vender antecipadamente imóveis e veículos apreendidos.
O juiz Thiago Machado justificou a medida como necessária para evitar a rearticulação do grupo, mesmo após o decreto municipal que encerrou o contrato. Ele ressaltou, contudo, que a decisão não afeta a prestação do serviço de transporte.
Por outro lado, o juiz Rodolfo Campos, da Vara da Fazenda Pública, suspendeu o encerramento do contrato entre a prefeitura e a Transwolff. Ele considerou que o município não seguiu os trâmites adequados do processo administrativo, determinando que a prefeitura entregue à empresa cópias de todo o processo em cinco dias úteis.
O magistrado também proibiu a gestão municipal de contratar outras empresas para os lotes operacionais da Transwolff e ordenou a devolução da concessão, alegando risco de dano irreversível à empresa.
Posicionamentos oficiais e próximos passos
A Prefeitura de São Paulo informou na segunda-feira, 26 de dezembro, que deu início ao processo para uma nova licitação, que definirá o próximo concessionário. A administração municipal garantiu que, enquanto isso não ocorre, não haverá prejuízo para os passageiros nem para os funcionários, que terão os empregos mantidos, assim como o pagamento de salários e benefícios.
Sobre a decisão da Vara da Fazenda Pública, a prefeitura afirmou que não foi ouvida no processo e que vai recorrer. Já em relação à determinação da Vara de Crimes Tributários, a gestão municipal disse que ainda está analisando o caso.
A Procuradoria Geral do Município de São Paulo emitiu uma nota reforçando que o decreto de caducidade é legal e foi adotado após um processo administrativo regular. A PGM destacou que a intervenção e caducidade na Transwolff foram determinadas por ordem judicial devido ao envolvimento dos sócios com o crime organizado.
A Transwolff, por sua vez, esclareceu que não recebeu notificação sobre a decisão que determinou a suspensão de suas atividades e repudiou qualquer tentativa de associação com organizações criminosas. A empresa afirmou que segue se defendendo nas instâncias competentes e colaborando com as autoridades.
Este imbróglio judicial e administrativo coloca em evidência os desafios da gestão do transporte público em uma metrópole como São Paulo, onde decisões urgentes precisam equilibrar segurança jurídica, interesse público e a continuidade de um serviço essencial para a população.