Empresa Progresso assume linhas da Logo Caruaruense após denúncias de irregularidades em Pernambuco
Progresso assume linhas da Logo Caruaruense após irregularidades

Mudança no transporte intermunicipal de Pernambuco após escândalo de irregularidades

A Empresa Pernambucana de Transporte Coletivo Intermunicipal (EPTI) confirmou oficialmente neste sábado (24) uma significativa alteração no cenário do transporte público do estado. A Auto Viação Progresso assumiu imediatamente as quatro linhas que eram operadas pela polêmica empresa Logo Caruaruense, que encerrou suas atividades após uma série de denúncias graves.

A Logo Caruaruense, empreendimento do ex-governador João Lyra (PSD), pai da atual governadora Raquel Lyra (PSD), vinha sendo alvo de investigações que revelaram um quadro alarmante de descumprimento das normas de segurança.

Detalhes da transição e linhas afetadas

Segundo o comunicado oficial divulgado pela EPTI, órgão vinculado à Secretaria Estadual de Desenvolvimento e Habitação (Seduh), a Progresso firmará um Termo de Autorização e Compromisso para operar as seguintes rotas:

  • Recife/Caruaru – modalidades Executivo e convencional
  • Caruaru/Santa Cruz do Capibaribe
  • Caruaru/Bezerros
  • Caruaru/São Caetano

A transição ocorre em um momento de intensa pressão sobre as autoridades estaduais, especialmente após a divulgação de um relatório interno da EPTI que detalhou as irregularidades da empresa familiar da governadora.

Irregularidades sistêmicas na frota da Logo Caruaruense

O documento oficial da EPTI revelou que a Logo Caruaruense operava com uma frota de 50 veículos para viagens intermunicipais, nenhum dos quais passou pelas averiguações técnicas obrigatórias nos últimos anos. A situação é ainda mais grave quando se constata que alguns ônibus estavam circulando com licenças vencidas desde 2021, colocando em risco a segurança dos passageiros.

Além das vistorias vencidas, a empresa também funcionava sem o Certificado de Registro Cadastral (CRC), documento fundamental para a regularização do serviço, que não era pago pelo menos desde 2020. Essa combinação de irregularidades configurou um cenário de total desrespeito às normas de segurança no transporte coletivo.

Revelações chocantes de funcionários da EPTI

Em depoimentos sigilosos ao g1, funcionários da EPTI relataram que 2022 foi o último ano em que foram realizadas vistorias nos ônibus da Caruaruense. Eles afirmaram categoricamente que existia uma ordem não escrita impedindo a fiscalização dos veículos da empresa ligada à família da governadora.

"Existe uma ordem não dita que não se pode fiscalizar a Logo Caruaruense. Não é nada por escrito, mas sabemos que vem lá de cima", revelou uma das fontes, que preferiu manter o anonimato por temer represálias.

Outro funcionário detalhou o procedimento normal das vistorias: "Na vistoria, os ônibus recebem um cartão amarelo que identifica todos eles, mas esse cartão é válido por um determinado tempo. Se ele for parado numa fiscalização e não tiver o cartão, paga uma multa de R$ 2,9 mil. Todos os carros da Caruaruense estão com esse cartão vencido, mas eles não são pegos, porque ninguém pode fiscalizar".

Repercussão política e pedido de impeachment

O escândalo das irregularidades teve desdobramentos políticos imediatos. Diante da gravidade das denúncias, a governadora Raquel Lyra anunciou pessoalmente o encerramento das atividades da empresa do pai, tentando conter os danos à sua imagem.

Entretanto, as medidas não foram suficientes para acalmar a oposição. O deputado estadual Romero Albuquerque (União Brasil) protocolou na segunda-feira (19) um pedido formal de impeachment contra a governadora na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).

No documento, o parlamentar aponta possíveis indícios de crime de responsabilidade por parte de Raquel Lyra, citando não apenas a operação irregular da empresa familiar, mas também a contratação da Logo Caruaruense sem processo licitatório pela gestão estadual.

A Mesa Diretora da Alepe recebeu formalmente o pedido de impeachment, iniciando um processo que promete agitar ainda mais o cenário político pernambucano. O governo do estado, procurado pelo g1 para se manifestar sobre as acusações, não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.

A transição para a Auto Viação Progresso representa uma tentativa de normalizar o serviço de transporte nas quatro linhas afetadas, mas deixa questões importantes sem resposta sobre como uma empresa com tantas irregularidades pôde operar por tanto tempo sem fiscalização adequada.