Justiça de SP suspende licitação bilionária da Prefeitura que escolheu proposta mais cara
Justiça suspende licitação bilionária de obra viária em SP

Justiça suspende licitação bilionária da Prefeitura de São Paulo após escolha de proposta mais cara

O Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu uma liminar na quinta-feira (22) para suspender o andamento de uma licitação de R$ 2,09 bilhões da Prefeitura de São Paulo. A decisão judicial paralisa o processo em que a administração municipal escolheu como vencedora a empresa espanhola Acciona, mesmo ela tendo apresentado a proposta mais cara entre os concorrentes.

Detalhes da obra e impacto da decisão

O contrato em questão trata da construção da ligação viária entre a Avenida Jornalista Roberto Marinho e a Rodovia dos Imigrantes, na Zona Sul da capital paulista, além da implantação de um parque linear na região. O relator do caso, desembargador Nogueira Diefenthähler, entendeu que a continuidade da execução do contrato poderia gerar situações de difícil reversão, diante do valor elevado e do impacto significativo da obra para a cidade.

"A concessão do efeito suspensivo, portanto, liga-se exclusivamente ao exercício do poder geral de cautela, e, neste passo, considerei o estágio avançado do procedimento licitatório, a relevância econômico-financeira do ajuste e as repercussões sociais da obra objeto do contrato", ressaltou o magistrado em sua decisão.

Concorrência acirrada e recursos administrativos

A confirmação da Acciona como vencedora da licitação havia sido publicada no Diário Oficial do município em 14 de janeiro. Apesar de ter apresentado uma proposta cerca de R$ 300 milhões mais cara do que a de concorrentes, a empresa conseguiu reverter o resultado inicial da concorrência após entrar com recursos administrativos.

Inicialmente, a Acciona ficou em terceiro lugar na concorrência. No entanto, a comissão técnica acatou o recurso apresentado pela empresa e desclassificou o consórcio que estava na primeira colocação. Segundo a prefeitura, o Consórcio Expresso Roma – CER (Álya/OECI) foi desclassificado por apresentar proposta em desacordo com o edital, ao suprimir viadutos e o sistema de macrodrenagem exigido. O valor apresentado por este consórcio foi de R$ 1,8 bilhão.

A Acciona também conseguiu ultrapassar o consórcio que havia ficado em segundo lugar após pedir a revisão das notas técnicas atribuídas ao projeto. O Consórcio Nova Roma apresentou proposta de R$ 1,9 bilhão.

Ação judicial movida por consórcio desclassificado

A ação que resultou na liminar foi movida pela Álya Construtora S/A, integrante do Consórcio Expresso Roma. Em nota, o consórcio informou que entrou com um mandado de segurança para anular a assinatura do contrato "visando garantir uma análise técnica e jurídica aprofundada do certame a partir dos laudos apresentados".

Segundo o Expresso Roma, a sua proposta "é a mais vantajosa para São Paulo, sendo cerca de R$ 300 milhões mais econômica que a escolhida, e cumpre 100% do objeto do edital". O consórcio reiterou que o seu projeto usa "inovações de engenharia expressamente previstas e incentivadas pela Lei de Contratações Integradas (13.303/2016), que existe justamente para que as empresas não apenas copiem o esboço, mas tragam novas alternativas e otimização ao projeto".

Características do projeto viário

O projeto prevê o prolongamento da Avenida Jornalista Roberto Marinho até a Rodovia dos Imigrantes, em um trecho de 3,7 quilômetros, com as seguintes características:

  • Três pistas para veículos
  • Uma pista exclusiva para motos
  • Três viadutos
  • Um túnel de 460 metros
  • Dois quilômetros de ciclovia

Além da ligação viária, o contrato prevê a criação de um parque linear ao longo do Córrego Água Espraiada, que é canalizado e atravessa a avenida e comunidades da região do Jabaquara, também na Zona Sul. O desenho do projeto já considera a futura extensão da Linha 17-Ouro do monotrilho até o Jabaquara, obra do governo do estado, que deverá atravessar o parque.

Controvérsias na licitação

Desde a publicação do edital, a licitação vinha sendo alvo de críticas de empresas brasileiras. Um dos principais questionamentos era um critério de pontuação que dava mais pontos a concorrentes que tivessem um engenheiro com mais de 20 anos de experiência na construção de estruturas estaiadas.

Como esse tipo de obra é recente no Brasil, o critério foi interpretado por empresas do setor como um possível favorecimento a grupos estrangeiros. O edital acabou sendo revisado nesse ponto, mas a concepção do projeto foi mantida.

Próximos passos e prazos

A liminar concedida pelo Tribunal de Justiça vale até o julgamento do recurso, suspendendo temporariamente todo o processo licitatório. Antes do início das obras propriamente ditas, ainda serão realizadas etapas preliminares, como a elaboração dos projetos básico e executivo e estudos ambientais.

Segundo a prefeitura, todos os serviços previstos no contrato — incluindo a execução das obras — têm prazo de 48 meses, contados a partir da emissão da ordem de serviço. A Acciona já atua em São Paulo com a gestão do governador Tarcísio de Freitas na construção da Linha 6-Laranja do Metrô e, agora, estava prestes a assumir uma das maiores obras viárias da gestão do prefeito Ricardo Nunes.