Prefeitura do Rio lacra garagem de ônibus após descumprimento de prazos
A prefeitura do Rio de Janeiro realizou uma operação na manhã deste sábado (31) para lacrar a garagem dos ônibus das Viações Real Auto Ônibus e Vila Isabel. A ação contou com a presença do prefeito Eduardo Paes (PSD), do vice Eduardo Cavaliere e da secretária de Transportes, Maína Celidônio, destacando a gravidade da situação.
Desrespeito histórico com a população
Em declaração, o prefeito Eduardo Paes criticou fortemente as concessionárias, afirmando que este é um caso clássico de desrespeito com os usuários do transporte público. "Talvez a gente tenha aqui no caso dessas duas viações o caso mais clássico e típico do desrespeito dessas concessionárias de ônibus com a população", disse Paes. Ele ressaltou que, na véspera, apenas 20 dos 200 ônibus estavam em operação, e que as empresas nem sequer realizaram as vistorias necessárias, apesar de todos os prazos concedidos.
Paes descreveu a garagem como um "verdadeiro cemitério de ônibus", com veículos em estado deplorável. O lacramento é resultado de um processo que, segundo ele, foi mais lento do que o desejado, mas necessário para impor rigor. "Não vamos permitir mais esse desrespeito de décadas com a população. Vamos agir com muito rigor, vamos lacrar, vamos interromper, vamos antecipar e acabar com a licitação dessas empresas", completou o prefeito.
Frota irregular e impacto nos passageiros
As empresas tinham até sexta-feira (30) para regularizar a situação de mais de 200 ônibus. No entanto, a fiscalização revelou que, da Viação Real Auto Ônibus, apenas 16 dos 200 veículos estavam em situação regular. Já na Viação Vila Isabel, nenhum dos 50 ônibus realizou vistoria no prazo de um ano, agravando a crise no transporte.
Passageiros que dependem dessas linhas para se deslocar de bairros da Zona Norte até a Zona Sul, especialmente para o trabalho, têm enfrentado sérias dificuldades. Na manhã de sexta-feira (30), uma equipe de reportagem flagrou dezenas de pessoas esperando por mais de uma hora em um ponto de ônibus na Leopoldina, na Zona Central. Linhas como a 460, que liga São Cristóvão ao Leblon, quase não são vistas, complicando ainda mais a mobilidade urbana.
Criação de novas linhas e críticas
Em resposta à crise, a prefeitura anunciou a criação de novas linhas de ônibus, incluindo a Linha 475 (Metrô São Cristóvão - Leblon), que poderia substituir ou reforçar o atendimento. No entanto, essa linha não passa pela Leopoldina, deixando de atender passageiros que usam a Avenida Francisco Bicalho. Outras linhas, como a 463, também apresentam problemas, com usuários relatando esperas de mais de 1h20 e, em muitos casos, tendo que recorrer a carros de aplicativo.
Mônica, uma passageira que trabalha no Humaitá, expressou sua frustração: "Todo dia é essa correria. Me sinto humilhada, porque eles acham que a gente anda de graça. A gente não anda de graça. Merecia ter um pouco mais de respeito". Situações semelhantes foram relatadas para as linhas 112 e 110 no Terminal Gentileza.
Licinio Machado Rogério, presidente da Federação das Associações de Moradores do Município do Rio (FAM-RIO) e integrante do Conselho Municipal de Transporte, reconhece a tentativa da prefeitura em atender à demanda, mas alerta para a falta de consulta pública. "A prefeitura tenta solucionar o problema, mas a consulta aos passageiros é fundamental. E a comunicação em relação às novas linhas também precisa ser mais efetiva", afirmou.
Demissões e problemas trabalhistas
Além dos impactos aos passageiros, funcionários das empresas também estão sofrendo. Informações recebidas pela TV Globo indicam demissões de motoristas no final da semana, com relatos de atrasos no pagamento de salários e ticket-refeição. Um motorista, que preferiu não se identificar, denunciou a situação: "Covardia o que a empresa fez com a gente, funcionários da Vila Isabel. Estão mandando todo mundo embora, trabalhamos o mês todo. Nosso vale-alimentação já está dois meses atrasado".
Posicionamento das autoridades e consórcios
Procurado, o sindicato das empresas de ônibus, Rio Ônibus, afirmou que o Consórcio Intersul está seguindo o planejamento operacional determinado pela Secretaria Municipal de Transportes (SMTR). A SMTR, por sua vez, esclareceu que a relação institucional é com os consórcios, não com as empresas individualmente, e que todos os quatro consórcios foram oficiados sobre a necessidade de vistorias.
A secretaria listou ajustes no sistema, incluindo a criação de novas linhas como 162, 319, 160, 475 e 111, além de revisões nos itinerários das linhas 109, 162 e 456. Em nota, a SMTR afirmou: "A SMTR seguirá atuando para avaliar e implementar novas medidas, sempre com o objetivo de garantir a continuidade e a qualidade do serviço prestado aos usuários do transporte público".
O prefeito Eduardo Paes reforçou o compromisso de reformar o sistema rodoviário até 2028, garantindo qualidade semelhante ao BRT. Ele anunciou que o consórcio assumirá 60% das linhas das viações a partir do dia seguinte, com possibilidade de substituição total da frota ou intervenção da Mobi-Rio, empresa municipal.