Túmulo de Maria Elizabeth, a 'santinha de Passo Fundo', atrai devotos há 60 anos
Túmulo de 'santinha de Passo Fundo' atrai devotos há 60 anos

Túmulo de Maria Elizabeth, a 'santinha de Passo Fundo', atrai devotos há 60 anos

Fé e devoção movem centenas de pessoas todos os anos até o túmulo de Maria Elizabeth de Oliveira, uma menina que faleceu aos 14 anos em Passo Fundo, no Norte do Rio Grande do Sul, e é considerada santa por seus seguidores. O acidente de trânsito que tirou sua vida completa seis décadas, mas sua história ganhou força ao longo dos anos, transformando o jazigo em ponto de peregrinação para fiéis que buscam dar graças e fazer pedidos.

O trágico acidente que marcou a cidade

Em 28 de novembro de 1965, um domingo, Maria Elizabeth brincava com amigas na calçada de sua casa, na esquina da Avenida Presidente Vargas com a Rua Padre Valentim, quando uma Kombi da empresa de transporte urbano Vera Cruz, conduzida por Gentil Lima, desgovernou e invadiu a calçada, atropelando o grupo de crianças. Conforme relata a historiadora Gizele Zanotto, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo, somente Maria Elizabeth se feriu com gravidade, falecendo horas depois no hospital.

O acidente foi amplamente noticiado nas rádios da época e causou grande comoção na comunidade, com moradores se reunindo em frente à casa de saúde em busca de informações sobre o estado da menina. Logo após o sepultamento, seu túmulo no Cemitério Vera Cruz começou a receber visitantes, prática que se mantém até os dias atuais.

Os mistérios e a devoção que persistem

Os fiéis costumam oferecer rosas vermelhas à santinha, tradição que teve início em seus últimos momentos de vida, quando uma flor foi entregue em sua cama hospitalar. Anualmente, centenas de pessoas visitam o jazigo, especialmente no aniversário de sua morte, em novembro. Curiosamente, há relatos de que Maria Elizabeth teria previsto o próprio acidente, alertando amigos e familiares antes do ocorrido.

O livro Maria Elizabeth de Oliveira: uma estrela no céu (1969), de Fidélis Dalcin Barbosa, reúne depoimentos de pessoas próximas que afirmam que a menina expressava o desejo de morrer, dizendo que queria comemorar seus 15 anos "no céu". Pouco antes do acidente, ela teria até escolhido um caixão na vitrine de uma funerária, que posteriormente foi utilizado, sem o conhecimento dos pais sobre esse episódio.

Para a pesquisadora Gizele Zanotto, a trajetória de Maria Elizabeth apresenta semelhanças com a de outros santos católicos, caracterizando-se por "vida benevolente, morte martirizada, realização de graças e ênfase no sofrimento e na morte". Embora não haja milagres oficialmente atribuídos à santinha, existem relatos de "graças alcançadas", materializadas nos diversos objetos deixados no túmulo, como placas, banners, flores, bilhetes, cartas, bonecas e fotografias.

Quem foi Maria Elizabeth de Oliveira

Maria Elizabeth nasceu em Passo Fundo no dia 6 de fevereiro de 1951. Após breve mudança para Lagoa Vermelha, retornou aos cinco anos para a cidade natal para morar com os avós. Batizada na Paróquia Santa Terezinha em 4 de março de 1951, ela frequentava a igreja regularmente e atuava como voluntária no Lar da Menina.

Sua educação incluiu passagens pelo jardim de infância do Colégio Notre Dame, pelo Ginásio Menino Jesus e, a partir de 1963, pelo Grupo Escolar Protásio Alves. Meses antes do acidente fatal, seus pais, Leda Morandi de Oliveira e Alcides de Oliveira, retornaram a Passo Fundo, e ela voltou a viver com eles e com o irmão, Roberto, nascido em 1961.

Reconhecimento e popularidade além das fronteiras

Apesar de sua popularidade no Rio Grande do Sul e de atrair devotos de outros estados e até de países vizinhos, Maria Elizabeth não é reconhecida oficialmente como santa pela Igreja Católica. Para isso, seria necessário um processo de canonização, que não está em andamento atualmente. Contudo, a devoção popular permanece forte, mantendo viva a memória da santinha de Passo Fundo e seu legado de fé que transcende gerações.