A alquimia por trás dos sucessos musicais do verão
O que transforma uma música comum em um verdadeiro fenômeno de temporada, capaz de invadir praias, ruas e fones de ouvido de milhões de pessoas em tempo recorde? No verão de 2026, a resposta envolve uma combinação precisa de engenharia musical, estratégias de marketing rigorosas e o poder incontestável das coreografias nas plataformas digitais.
O caso exemplar de "Jetski" e sua construção técnica
Um dos maiores exemplos desse sucesso estruturado é "Jetski", hit de Pedro Sampaio em parceria com Melody e Menok, que alcançou o topo das paradas brasileiras e figurou entre as 50 mais ouvidas globalmente em uma grande plataforma de streaming. Para o DJ e produtor Pedro Sampaio, a primeira impressão é crucial e precisa ser imediata para capturar a atenção do ouvinte moderno, frequentemente disperso.
O artista revela uma preocupação técnica específica com o tempo que o público leva para chegar à parte principal da composição. "Para mim é muito importante que quando você der play numa música do Pedro Sampaio, você reconheça ela no primeiro e segundo segundo. Já chama a atenção. Eu gosto de gastar pouco tempo do início da música até o refrão", explica Sampaio.
"A música começa e o refrão toca em 18 segundos. Do início da música até a primeira vez que o refrão toca, você escutou 18 segundos. Depois a música se desenvolve. Mas esse início ser, pá, pum, pra mim é muito importante", detalha o músico, destacando a agilidade como elemento fundamental.
Além da velocidade, a construção musical trabalha com um jogo calculado de sensações para amplificar o impacto emocional. "Uma coisa importante são as sensações. Então o início de 'Jetski' ele é um pouco mais tenso e quando vem o refrão ele se torna muito alegre. Então essa tensão que precede essa alegria deixa a alegria ainda mais alegre", analisa Pedro Sampaio.
Colaborações estratégicas e identidade visual
A construção do hit também passou por parcerias cuidadosamente selecionadas. Melody, que divide os vocais em "Jetski", conta que o convite foi surpreendente. "Eu não sabia de nada nada, ele só falou assim: 'vem pra cá'. Falei: 'tô indo'", relembra a cantora.
Ela destaca ainda o meticuloso cuidado de Pedro Sampaio com a identidade visual da faixa: "Quem fez a ideia do capacete foi ele. Ele pensa em tudo, não é?". O próprio Sampaio reforça a força da imagem da parceira: "Qualquer lugar que ela vai o capacete já é uma marca".
Já o cantor Menok entrou no projeto através da improvisação criativa. "Me falou algumas coisas, né? Tipo, umas ideias que eu poderia botar na música. Daí eu fui ali, dentro da minha mente, construí a ideia e ele super curtiu, né, mano?", relata o artista.
A visão dos especialistas em "hitar"
O resultado é o que Pedro Sampaio define como "o tal de Chiclete", aquela música que, segundo o especialista Paulo Pimenta, cria a sensação de que "para onde você vai aquela música está tocando".
Paulo Pimenta, empresário que trabalha com Anitta há onze anos e agora também com Pedro Sampaio, é considerado uma autoridade em criar sucessos musicais. Para ele, o êxito de uma música de Carnaval começa a ser construído meses antes do lançamento.
"Se você fosse minha cliente e me perguntasse até quando você poderia lançar, eu te diria que o seu máximo é a meados de dezembro", afirma Pimenta, revelando o cronograma estratégico.
Ele detalha que o processo criativo já nasce com foco comercial e potencial viral. "O elemento principal é a própria música. Então, quando essa composição está sendo feita, tanto na escrita quanto na produção musical, existe sim uma preocupação com o refrão, com batidas fortes, com expressões que podem viralizar", explica.
O empresário completa: "A gente tem o cronograma de marketing, que ele inclui todo o relacionamento com a mídia. A gente tem os eventos, tantos lançamentos da música, o agendamento de programas de televisão, de rádio também".
O trabalho nos bastidores segundo Anitta
Anitta, que viu seu hit "Gostosin" ser eleito a música que definiu o verão de 2026, reforça que o "trabalho de formiguinha" nos bastidores é o verdadeiro sustentáculo do topo das paradas.
"O que faz de uma música um hit, com certeza, é a forma como aquele artista vai trabalhar aquela música, né? A divulgação, a promoção, a quantidade de trabalho que você vai colocar nisso. Às vezes as pessoas não têm noção do quanto que isso interfere", afirma a cantora.
As dancinhas como pilar estratégico
No cenário musical contemporâneo, a coreografia deixou de ser um simples complemento para se tornar um pilar estratégico fundamental. "As dancinhas viraram um produto quase tão importante quanto a música", observam especialistas do setor.
Paulo Pimenta confirma que muitas composições já nascem com coreografias em mente: "Muitos compositores de hits já compõem, já sentam ali falando: 'se eu colocar essa palavra aqui, talvez fique melhor na dança'".
Além de "Jetski", outras canções confirmaram essa tendência de viralização e ritmo de verão em 2026:
- "Desliza", de Léo Santana com Melody
- "Vampirinha", de Ivete Sangalo
- "Carnaval", de Marina Sena com Psirico
Fenômenos orgânicos e o poder do inusitado
Apesar das fórmulas milionárias e estratégias bem planejadas, o mercado musical ainda reserva espaço para sucessos que nascem do acaso e da simplicidade genuína.
Yasmim Sensação viu a música "Fanatismo" atingir impressionantes 10 milhões de visualizações com um vídeo caseiro gravado em Canindé do São Francisco, Sergipe. "Eu e meu irmão, alô Inácio, amo você, a gente estava sem nada para fazer lá em casa, ele falou: 'vamos fazer um vídeo bem simples lá, bem simples'. Descemos e gravamos o vídeo", conta Yasmim.
Para a artista, o segredo do sucesso residiu em um detalhe vocal específico: "Eu acho que foi o gemidinho. Eu não sei se é fanatismo, mas eu quando estou longe de ti...".
Paulo Pimenta analisa que, nesses casos excepcionais, o talento natural se sobrepõe ao orçamento disponível: "Eu já vi cifras muito pequenas, mas que o hit pegou, porque daí a gente volta na questão da música ser muito boa".
A emoção como força motriz
No fim das contas, como define sabiamente Ivete Sangalo, a música continua sendo movida primordialmente pela emoção e pelo comportamento imprevisível do público, elementos que nem mesmo a mais avançada inteligência de mercado consegue explicar completamente.
"Nem eu, nem o público, nem ninguém sabe exatamente a força de uma música. Não dá para ler isso com antecedência, o próprio movimento da música e do comportamento do público vai fazendo com que aquilo ganhe corpo", reflete a cantora.
Ela conclui com uma observação profunda sobre a natureza do sucesso musical: "E é isso que é o saboroso, porque se a gente sabe antes, isso perde totalmente a expectativa que a gente cria sobre as coisas. O novo, inusitado, é sempre muito mais bem-vindo do que o que já é esperado".