Miguel Falabella fala sobre cinema, 'Três Graças' e a liberdade do humor na atualidade
Miguel Falabella fala de cinema, 'Três Graças' e humor

Miguel Falabella mergulha no cinema e na TV com reflexões sobre humor e liberdade criativa

Consagrado no teatro e na televisão, o ator e diretor Miguel Falabella abriu seu coração em uma entrevista exclusiva, revelando detalhes sobre seus projetos mais recentes e suas visões sobre a arte. Durante a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada em janeiro, Falabella compartilhou insights sobre sua trajetória, destacando o lançamento do filme Querido Mundo e seu retorno à televisão aberta na novela Três Graças.

Do teatro para as telas: 'Querido Mundo' como experimentação

Codirigido com Hsu Chien, Querido Mundo nasceu de uma peça escrita por Falabella e Maria Carmen, originalmente encenada nos anos 1990 por Joana Fomm e Otávio Augusto. O filme, estrelado por Malu Galli e Eduardo Moscovis, narra a história de uma mulher aprisionada em um casamento opressor que, ao ficar presa nos escombros de um prédio abandonado ao lado do vizinho, encontra uma chance de romper com sua estagnação em um encontro inesperado às vésperas do Ano Novo.

Falabella enfatizou que o cinema representa para ele um espaço de experimentação e brincadeira com a linguagem. "Não tenho grandes pretensões cinematográficas. Faço cinema como um espaço de experimentação, de brincadeira com a linguagem", afirmou. Ele ressaltou que, enquanto muitos esperam que ele se limite a comédias como Sai de Baixo, o cinema oferece uma liberdade criativa que ele valoriza profundamente.

Personagens femininas e impacto emocional

Em Querido Mundo, Falabella coloca mais uma vez uma mulher no centro da narrativa, algo que marca sua obra. "As mulheres são personagens mais interessantes. Elas se expõem mais, dizem mais sobre suas emoções", explicou. A reação do público chamou sua atenção, especialmente em uma cena em que a personagem expressa ódio e um botijão explode, levando a plateia a aplaudir em uma espécie de vingança coletiva.

Ele destacou que, ao contrário da peça teatral, que tinha uma abordagem mais cômica e começava com a explosão, o filme explora a vida pregressa da personagem, mostrando o abuso de forma mais visceral. "No filme, criei toda uma vida pregressa da personagem até chegar à explosão. Aqui, o abuso aparece. Você vê a violência. Isso muda completamente o impacto", observou.

Retorno à TV em 'Três Graças' e representatividade LGBTQIA+

Enquanto aguarda o lançamento nacional de Querido Mundo, ainda sem data definida, Falabella divide sua rotina entre projetos teatrais e as gravações de Três Graças, novela de Aguinaldo Silva que marca seu retorno à televisão aberta. Ele interpreta um personagem gay, casado há 25 anos e com uma filha, o que o atraiu especialmente para o papel.

"Historicamente, os personagens gays na TV aberta eram caricaturas, com visões preconceituosas. Era sempre o bobo da corte. Achei bonito mostrar um casal normal, como tantos que existem hoje", disse. Sobre os desdobramentos de seu personagem, ele adiantou que pode seguir caminhos tortuosos devido a uma obsessão com uma estátua, mas detalhes ainda estão em desenvolvimento.

Teatro como prioridade e reflexões sobre humor

Falabella deixou claro que o teatro é sua paixão máxima. "O teatro é a minha vida. Vou morrer no palco", declarou. Ele continua envolvido com o cinema, inclusive escrevendo um novo roteiro de comédia, mas enfatizou que o teatro sempre será sua prioridade.

Sobre seu icônico personagem Caco Antibes, de Sai de Baixo, ele refletiu sobre sua permanência na cultura pop, especialmente entre jovens que o descobrem através de memes na internet. "Ele é um personagem horroroso, e infelizmente representa um tipo que existe no Brasil até hoje: o horror ao pobre, o desprezo de classe", comentou. Falabella acredita que ainda é possível fazer personagens como Caco hoje, argumentando que a dramaturgia precisa de vilões para criar conflitos.

Quanto ao humor na atualidade, ele foi franco: "Acho impossível. Sinceramente, não vejo humor hoje". No entanto, ele não se lamenta e continua fazendo humor no teatro, sem se preocupar com autocensura. "Quem não gostar, passa no caixa. Nessa altura da vida, eu não vou me preocupar com o cancelamento", finalizou, destacando sua liberdade criativa e compromisso com a arte.