O Diabo Veste Prada 2: A moda como narrativa da maturidade
Quando a icônica frase "Miranda Priestly está vindo" ecoa novamente, não é apenas um chamado para reverenciar uma personagem lendária. É o sinal de que "O Diabo Veste Prada 2" está prestes a reconectar uma geração inteira com suas memórias afetivas, enquanto apresenta uma evolução visual profunda e significativa. Sob a direção de figurino de Molly Rogers, que assume o legado deixado por Patricia Field, o filme faz uma escolha audaciosa: abandonar a obediência cega ao ciclo frenético de tendências para abraçar um estilo atemporal, que sobrevive ao calendário efêmero da moda.
Menos tendência, mais permanência: a filosofia por trás dos looks
A regra fundamental estabelecida pela equipe de figurino foi clara: evitar o óbvio a todo custo. Nada de acessórios fáceis ou peças que denunciem imediatamente a estação do ano em que foram criadas. Em vez disso, a proposta foi construir imagens que possam ser vistas daqui a uma década sem parecerem datadas, seguindo o exemplo do primeiro filme, que se tornou uma referência estética permanente. Esta abordagem reflete uma mudança cultural mais ampla, onde a moda rápida perde espaço para peças duráveis e cheias de significado.
Miranda Priestly: o mito atualizado
Miranda, interpretada por Meryl Streep, surge fiel ao seu próprio legado, mas com ajustes sutis que revelam sua jornada. Ombros poderosos, silhuetas lapidadas e joias de cores saturadas compõem seu visual, com ecos deliberados de Audrey Hepburn. Um vestido sob medida da Balenciaga, já na fase de Pierpaolo Piccioli, reforça a ideia de uma mulher que não apenas manteve seu trono, mas também adaptou sua armadura para um cenário de mídia mais instável e digitalizado. Referências a Lanvin e couture de arquivo de Gaultier completam um jogo entre estrutura e fluidez que traduz sua autoridade inabalável.
Emily Blunt: do assistente ao comando
Emily, vivida por Emily Blunt, agora está no comando de uma marca de luxo, e seu figurino reflete essa ascensão com precisão cirúrgica. O icônico bob vermelho permanece como sua assinatura visual, mas os looks ganham um peso corporativo inegável. Alfaiataria afiada, acessórios que sinalizam status e roupas que comunicam poder financeiro mostram que ela não é mais a assistente que corre atrás de tarefas, mas sim a pessoa que detém as chaves do dinheiro e das decisões.
Andy Sachs: a transformação mais profunda
A virada mais interessante, no entanto, pertence a Andy Sachs, interpretada por Anne Hathaway. Sua volta à redação da Runway é costurada por uma estética quase masculina e cheia de narrativa. Ternos, gravatas, coletes e saias plissadas de marcas como Gabriela Hearst, Sacai e Ulla Johnson, além de muito vintage, desenham uma mulher que passou anos na estrada fazendo jornalismo investigativo. Um terno listrado de três peças de Jean Paul Gaultier, blazers Armani garimpados e referências diretas a Annie Hall mostram que Andy aprendeu a se vestir fora do radar óbvio da moda, com cada peça carregando uma biografia própria.
Beleza real: a maturidade em foco
A beleza no filme acompanha essa jornada de maturidade, fugindo deliberadamente do efeito artificial das redes sociais. Menos cabelo engessado e mais movimento, menos maquiagem de passarela e mais pele real são as diretrizes que guiaram a equipe. A proposta foi abraçar uma beleza mais limpa, adulta e coerente com personagens que já viveram décadas de experiências, sem a necessidade de fingir que ainda têm vinte anos. Esta escolha reforça a mensagem central do filme: a autenticidade supera a efemeridade.
Conclusão: o estilo que não envelhece
Em um filme onde a roupa sempre foi um instrumento de poder, "O Diabo Veste Prada 2" amplia o discurso, mostrando que o figurino não apenas impressiona, mas também explica trajetórias. Quem ficou, quem saiu e quem voltou diferente estão todos traduzidos em tecidos, cortes e escolhas estéticas. Quando Miranda atravessa o corredor mais uma vez, não é apenas para ser temida, mas para lembrar que o estilo verdadeiro não envelhece. Ele se adapta, se aprofunda e continua a comandar, mesmo quando o mundo ao redor muda de algoritmo e as tendências se dissipam no vento.