Nova adaptação de clássico literário provoca com sensualidade e mudanças radicais
Quando um clássico da literatura ganha nova vida nas telas do cinema, os fãs sempre se perguntam sobre fidelidade ao original e as diferenças entre as obras. "O Morro dos Ventos Uivantes", que estreia nesta quinta-feira (12) nos cinemas brasileiros com Margot Robbie e Jacob Elordi nos papéis principais, parece pouco interessado em responder a essas questões tradicionais.
Uma abordagem ousada da diretora Emerald Fennell
A cineasta e roteirista Emerald Fennell, declarada admiradora do livro que Emily Brontë publicou em 1847, optou por uma abordagem radicalmente diferente. Em vez de seguir rigidamente o texto vitoriano, ela se inspirou na história gótica para criar algo novo, rompendo com dogmas que muitos puristas consideram sagrados.
Três grandes diferenças marcam essa adaptação em relação ao material original:
- Foco na sensualidade: Desde os primeiros trailers, ficou evidente que a relação entre os protagonistas ganhou uma dimensão física e sexual ausente no livro, onde o máximo que ocorre é um beijo desesperado. Fennell transforma a obsessão psicológica e espiritual de Brontë em tensão sexual quase palpável.
- Abordagem dos abusos: A diretora, conhecida por discutir temas delicados de maneira não óbvia em filmes como "Bela Vingança", transforma o tema do abuso em um jogo erótico que borra limites entre consentimento, subjugação e humilhação.
- Ausência da segunda geração: A obra do século XIX explora hereditariedade do trauma acompanhando uma segunda geração de personagens, elemento completamente eliminado na versão cinematográfica.
Polêmica do "whitewashing" e representação
Uma das mudanças mais discutidas envolve a etnia do personagem Heathcliff, vivido por Jacob Elordi. No livro original, Brontë descreve Heathcliff como alguém de pele escura e aparência estrangeira para a Inglaterra do século XIX, mas na grande maioria das adaptações - incluindo esta - o personagem é interpretado por atores brancos.
Essa prática, conhecida como "whitewashing", gerou críticas justificadas considerando a escassez de papéis para atores de minorias em Hollywood. A defesa do filme argumenta que o sentimento de não pertencimento do personagem pode ser explicado pela velha disputa de classes da época, mas a questão racial permanece relevante.
Exagero estético e qualidade cinematográfica
O filme de Fennell abraça um visual deslumbrante com cenários oníricos, figurinos extravagantes que parecem saídos da Semana de Moda de Paris, e uma trilha sonora exagerada repleta de violinos. A tensão sexual é quase sólida, criando uma atmosfera de suor perpétuo nos morros gelados e uivantes.
Jacob Elordi se destaca como Heathcliff, redimendo-se de atuações anteriores menos marcantes, enquanto Margot Robbie mantém sua excelência habitual. Alison Oliver surge como revelação do elenco, embora Hong Chau pareça um tanto deslocada em seu papel.
Vale a pena assistir?
O filme é excelente em seus próprios termos, mas não é a adaptação que os fãs mais puristas de Brontë poderiam esperar. Fennell concentra-se na relação doentia entre os protagonistas e em como ela afeta todos ao redor, criando um melodrama ainda mais melodramático que o original.
Embora algumas cenas de felicidade conjugal desacelerem perigosamente o ritmo na metade do filme, a narrativa rapidamente recupera seu ímpeto rumo ao final trágico que o público tanto espera. A discussão sobre possível banalização do sofrimento e relações tóxicas permanece aberta, mas como a própria arte frequentemente demonstra, nem sempre é necessário preocupar-se excessivamente com essas questões.
Esta adaptação de "O Morro dos Ventos Uivantes" prova que clássicos podem ser reinterpretados de maneiras surpreendentes, mesmo que isso signifique afastar-se consideravelmente do material fonte para criar algo novo e provocador.