Falece aos 84 anos o reverendo Jesse Jackson, símbolo da luta por igualdade racial
O mundo perdeu uma das vozes mais significativas na defesa dos direitos civis e da justiça social. O reverendo Jesse Jackson, líder histórico do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, faleceu aos 84 anos, deixando um legado que transcende fronteiras e gerações. Nascido em 1941 no sul segregacionista dos EUA, filho de mãe solteira, Jackson superou adversidades estruturais para se tornar uma força transformadora na sociedade americana.
Da ordenação pastoral ao ativismo estudantil
Ordenado pastor na Igreja Batista, Jesse Jackson emergiu como líder estudantil durante os turbulentos anos 1960, período marcado por profundas transformações sociais. Sua eloquência e compromisso com a causa impressionaram ninguém menos que Martin Luther King Jr., com quem estabeleceu uma parceria fundamental no movimento que começou a desmantelar o sistema de segregação racial nos Estados Unidos. Em um momento trágico da história, Jackson estava ao lado de King quando o ícone dos direitos civis foi assassinado, experiência que moldaria ainda mais sua trajetória de resistência.
Trajetória política e a "Coalizão do Arco-Íris"
Jesse Jackson ousou desafiar as estruturas políticas estabelecidas ao lançar sua candidatura à presidência pelo Partido Democrata em duas ocasiões: 1984 e 1988. Embora considerado prematuro para o contexto político da época, seu pioneirismo abriu caminhos fundamentais para futuras conquistas, incluindo a histórica eleição de Barack Obama. Jackson criou e liderou o que denominou de "Coalizão do Arco-Íris", uma aliança multifacetada que reunia negros, latinos, trabalhadores e brancos pobres em torno da bandeira da igualdade econômica e social.
Atuação internacional e diplomacia humanitáriaApós afastar-se da política eleitoral, Jackson dedicou-se a uma intensa agenda internacional, visitando o Brasil em duas ocasiões e engajando-se em causas globais. Sua luta contra o apartheid na África do Sul rendeu-lhe uma amizade próxima com Nelson Mandela, enquanto seu pioneirismo na defesa da causa palestina marcou posição corajosa no cenário político americano. Jackson também encontrou-se com Fidel Castro em Havana, defendendo a reaproximação entre cubanos e americanos, e negociou com sucesso a libertação de diversos cidadãos americanos detidos em outros países.
Legado como líder moral e transição histórica
Sem nunca ter conquistado um cargo eletivo, Jesse Jackson consolidou-se como figura de transição fundamental entre o movimento dos direitos civis clássico e a atual integração dos afro-americanos na política institucional dos Estados Unidos. Atuando como uma espécie de líder moral, Jackson manteve-se presente nas manifestações do movimento Vidas Negras Importam, onde era visto regularmente conclamando os participantes ao engajamento cívico e insistindo na manutenção de protestos não violentos.
Condições de saúde e reações à sua morteA família de Jesse Jackson não divulgou a causa específica do falecimento, mas o líder enfrentava desafios de saúde significativos nos últimos anos. Em 2015, recebeu diagnóstico de doença de Parkinson, e em novembro de 2025 foi hospitalizado para tratamento de uma condição degenerativa do sistema nervoso. Sua morte gerou reações emocionadas de figuras proeminentes da política americana.
O ex-presidente Barack Obama reconheceu que Jackson "plantou as fundações" para sua própria campanha presidencial histórica. Bill Clinton, também ex-presidente, descreveu-o como "um campeão da dignidade humana", enquanto a ex-candidata à presidência Kamala Harris o chamou de "um dos maiores patriotas da América". Até mesmo o ex-presidente Donald Trump, de orientação política distinta, declarou-se amigo de Jackson, referindo-se a ele como "um bom homem, cheio de garra".
Jesse Jackson deixa um legado indelével na luta por igualdade racial, justiça econômica e dignidade humana, tendo pavimentado o caminho para transformações sociais que continuam a moldar os Estados Unidos e inspirar movimentos similares em todo o mundo. Sua vida exemplifica o poder do ativismo persistente e da crença inabalável na possibilidade de mudança social através do engajamento pacífico e determinado.