Operação prende administradores de bingos ligados a bicheiro após depoimento de Ronnie Lessa
Operação prende administradores de bingos após depoimento de Lessa

Operação do Ministério Público prende administradores de bingos clandestinos ligados a bicheiro

Em uma ação coordenada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, quatro pessoas foram presas nesta quarta-feira (11) durante uma operação contra administradores de bingos clandestinos associados ao conhecido bicheiro Rogério Andrade. A operação, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), resultou na prisão preventiva de quatro indivíduos nos bairros do Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca e Taquara, localizados nas zonas Oeste e Sudoeste da capital fluminense.

Depoimento inédito de Ronnie Lessa revela esquema criminoso

A operação ocorre apenas um dia após a divulgação do depoimento inédito do ex-policial militar Ronnie Lessa, condenado a 78 anos de prisão pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Em interrogatório obtido com exclusividade pela GloboNews, Lessa confessou ter mantido uma sociedade em negócios ilícitos com Rogério de Andrade, um dos nomes mais proeminentes da contravenção no estado do Rio de Janeiro.

Os denunciados são acusados de administrar o bingo clandestino Espaço Classe A Recreio. As investigações identificaram que Ana Paula Alexandre Novello e Francesco Novello Neto atuavam como administradores do estabelecimento ilegal. A denúncia do Ministério Público destacou o alto volume financeiro movimentado diariamente no local e os prejuízos significativos causados aos jogadores envolvidos.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Detalhes do esquema de corrupção policial

No depoimento prestado por videoconferência em 26 de janeiro deste ano, Ronnie Lessa, que está preso em Brasília, revelou detalhes minuciosos sobre a abertura de um bingo clandestino na região do Quebra-Mar, na Barra da Tijuca, em 2018. O ex-policial afirmou categoricamente que negociou diretamente com policiais civis e militares para viabilizar e manter o funcionamento do negócio ilegal.

Segundo o relato de Lessa, no submundo dos jogos ilegais cada território possui um responsável estabelecido, sendo a Barra da Tijuca área de influência da família Andrade. Por essa razão, antes de inaugurar o bingo, ele procurou Rogério de Andrade para formalizar a sociedade criminosa. Lessa explicou durante o interrogatório que não poderia "simplesmente abrir um bingo" sem a autorização prévia de quem controlava a região.

Envolvimento de autoridades policiais

Após estabelecer a parceria com Andrade, o próximo passo, conforme descrito pelo ex-PM, foi negociar com a polícia. Lessa afirmou que recorreu a um amigo de infância, o delegado Marcos Cipriano, para intermediar contato com a então delegada titular da Barra da Tijuca, Adriana Belém. De acordo com seu testemunho, a reunião ocorreu em um restaurante próximo à delegacia, e a abertura do bingo teria contado com o aval explícito tanto da delegada quanto do então chefe do setor de investigações, Jorge Luís Camilo Alves.

Lessa também revelou que combinou o pagamento de propina com um policial militar do batalhão responsável pela área antes mesmo da inauguração do estabelecimento. Apesar desses acordos, no dia da abertura em julho de 2018, policiais militares interditaram o local e apreenderam 78 máquinas utilizadas para apostas. Lessa e Gustavo de Andrade, filho de Rogério, estavam presentes no momento, mas conseguiram escapar da ação policial.

Recuperação das máquinas apreendidas

Conforme detalhado no depoimento, dias após a apreensão inicial, a quadrilha conseguiu recuperar as máquinas confiscadas. Lessa afirmou que o material foi retirado do pátio da Delegacia da Barra após um novo acordo de corrupção, realizado separadamente do acordo inicial estabelecido anteriormente.

Em maio de 2022, os delegados Marcos Cipriano e Adriana Belém foram presos durante a Operação Calígula, conduzida pelo Ministério Público, que investigava uma extensa rede de jogos ilegais no Rio de Janeiro. As investigações apontaram o envolvimento direto de ambos na inauguração do bingo da Barra. Durante a operação, agentes apreenderam aproximadamente R$ 1,8 milhão em dinheiro vivo na residência de Adriana Belém. Atualmente, os dois respondem ao processo em liberdade, enfrentando acusações de corrupção.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Contexto do assassinato de Marielle Franco

No mesmo depoimento, Ronnie Lessa afirmou que, após a recuperação das máquinas e a reabertura do bingo clandestino, já estava envolvido em outro crime de grande repercussão nacional. O ex-PM se referiu ao assassinato da vereadora Marielle Franco como "o problema da vereadora", crime ocorrido em março de 2018. Em 2024, Lessa admitiu ter efetuado os disparos que mataram Marielle e Anderson Gomes, firmando posteriormente um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República. Ele cumprirá pena em regime fechado até o ano de 2037.

Posicionamento das autoridades e defesas

A Polícia Civil emitiu nota oficial afirmando que não compactua com nenhum tipo de desvio de conduta ou atividade ilícita, reiterando seu compromisso com o combate ao crime em defesa da sociedade. Segundo a Corregedoria-Geral de Polícia Civil (CGPOL), existem processos administrativos disciplinares (PADs) em andamento contra os três policiais citados por Ronnie Lessa. Os procedimentos foram instaurados imediatamente após a instituição tomar conhecimento das denúncias, e os servidores foram afastados de suas funções operacionais.

A Polícia Civil informou adicionalmente que dois dos envolvidos — Adriana Belém e Jorge Camillo — encontram-se atualmente aposentados, enquanto o terceiro, Marcos Cipriano, está cedido a outro órgão público. Todos podem enfrentar demissão do serviço público ao término das investigações administrativas, mesmo estando aposentados ou cedidos.

A defesa da delegada Adriana Belém repudiou veementemente as afirmações de que ela teria permitido a abertura de um cassino clandestino ou recebido qualquer tipo de pagamento ilícito. Segundo os advogados, a reunião mencionada por Ronnie Lessa teria ocorrido para tratar de um caso em que ele foi vítima do roubo de um relógio, sem qualquer discussão sobre atividades ilegais. A defesa argumenta que as provas dos autos demonstram que a reunião ocorreu quase um mês após o fechamento do bingo, o que, em sua visão, comprometeria a credibilidade do relato de Lessa.

A defesa do delegado Marcos Cipriano afirmou que as provas apresentadas pelo Ministério Público demonstram que Ronnie Lessa mente em sua colaboração premiada, sem apresentar comprovação adequada para as acusações. Segundo a nota oficial, Cipriano mantém sua inocência e confia plenamente na Justiça brasileira.

Já a defesa de Jorge Luiz Camillo Alves informou que quaisquer esclarecimentos sobre os fatos serão prestados exclusivamente em juízo, no momento oportuno, em respeito ao contraditório e à ampla defça. A equipe jurídica afirmou ainda que evita manifestações públicas para não alimentar sensacionalismo ou especulações prematuras sobre o caso em fase de apuração.