Criminosos intensificam uso de bloqueadores de sinal para dificultar investigações de roubos
Quadrilhas especializadas em roubo de cargas têm recorrido cada vez mais a bloqueadores ilegais de sinal de GPS e telefonia celular para dificultar o rastreamento de caminhões na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O número de apreensões desse tipo de equipamento feitas pela Polícia Militar em janeiro deste ano é quase cinco vezes maior do que o registrado no mesmo mês do ano passado, revelando uma tendência preocupante no cenário criminal fluminense.
Aumento expressivo nas apreensões
Segundo dados da Polícia Militar, as apreensões de bloqueadores saltaram de seis unidades em janeiro do ano anterior para impressionantes 29 dispositivos no mesmo período deste ano. Este total já representa mais de 30% de todos os bloqueadores recolhidos ao longo de todo o ano de 2025, quando 86 aparelhos foram apreendidos pelas autoridades. Os dispositivos atuam por interferência intencional em radiofrequências, impedindo completamente o funcionamento de sistemas de rastreamento e dificultando drasticamente a localização das cargas roubadas pelas quadrilhas especializadas.
Prejuízo milionário para a economia
Um estudo abrangente divulgado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) aponta que o roubo de cargas causou prejuízo direto estimado em R$ 314 milhões no estado apenas no ano passado. Foram registradas 3.114 ocorrências ao longo do ano, o que representa uma média alarmante de oito caminhões roubados por dia no território fluminense. A entidade destaca que o impacto econômico vai muito além da simples perda da mercadoria e inclui aumento significativo de gastos com seguros, escoltas armadas e diversas medidas de segurança preventiva.
"Os custos com o roubo de carga vão além da perda direta. O incremento dos custos de prevenção, com seguros e escolta, afeta todo o setor produtivo fluminense e não apenas as vítimas diretas do crime", afirmou Luiz Césio Caetano, presidente da Firjan, em entrevista coletiva. A Polícia Civil informou que atua de forma integrada com outras forças de segurança e que, desde setembro de 2024, já apreendeu 19 bloqueadores usados por criminosos. No mesmo mês, um homem apontado como principal fornecedor desses equipamentos para quadrilhas também foi preso em operação conjunta.
Relato de vítima revela gravidade
Uma das vítimas desse tipo de ação criminosa foi um caminhoneiro que transportava fios elétricos pela Avenida Leonel de Moura Brizola, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ele foi abordado por criminosos fortemente armados e relatou que os assaltantes insistiram em saber se o veículo possuía sistema de rastreamento ativo. "Perguntou se tinha rastreamento. E eu falei que tinha rastreamento. Para onde eles andassem com caminhão, o rastreamento ia avisar a empresa. E eu tenho que falar que tem rastreamento mesmo, senão a gente pode sofrer alguma coisa com eles. A realidade é essa. A gente fica à mercê deles aí. Infelizmente, a gente sai para trabalhar e não sabe se vai voltar", disse o motorista, que não quis ser identificado por questões de segurança pessoal.
Policiais da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) conseguiram localizar o caminhão roubado nos acessos da comunidade do Pantanal. O suspeito que conduzia o veículo tentou fugir, mas foi preso após breve perseguição. Com ele, os agentes apreenderam um bloqueador de sinais de última geração, confirmando a sofisticação do modus operandi criminoso.
Estratégia criminosa detalhada
De acordo com as investigações em andamento, a abordagem geralmente acontece em vias expressas e de grande circulação, onde os caminhões ficam mais vulneráveis. Em seguida, os veículos são levados para comunidades dominadas por facções criminosas, onde os bloqueadores são imediatamente acionados para impedir completamente o rastreamento enquanto a carga valiosa é descarregada rapidamente.
Em um caso recente que ilustra bem essa estratégia, policiais encontraram um caminhão roubado dentro de um galpão industrial cercado por dois bloqueadores de sinal posicionados estrategicamente. A tática, segundo investigadores especializados, é ampliar consideravelmente a área de interferência e garantir mais tempo para a retirada completa da mercadoria antes que as autoridades possiam localizar o veículo.
Uso restrito e importação ilegal
O uso legal de bloqueadores de sinal é extremamente restrito no Brasil e depende de autorização prévia específica da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). No território nacional, os aparelhos são de uso privativo exclusivo de órgãos públicos específicos com funções especiais de segurança.
"Ele atua por interferência intencional no espectro, nas radiofrequências que nós todos utilizamos. Então, eles podem afetar celular, GPS, dados, Wi-Fi, drones, serviço de emergência, serviços policiais. E ele é de uso privativo no Brasil, somente de órgãos públicos específicos, com autorização prévia da Anatel", afirmou Edson Holanda, conselheiro da Anatel, em comunicado oficial. Segundo ele, os aparelhos utilizados por criminosos chegam ao estado do Rio de Janeiro principalmente por meio de importações ilegais realizadas por redes especializadas. Apenas em 2025, a Anatel já fiscalizou e apreendeu mais de 200 bloqueadores clandestinos em operações por todo o país, demonstrando a dimensão nacional do problema.



