MPF investiga conexão brasileira com rede de Epstein após liberação de 3 milhões de arquivos nos EUA
O Ministério Público Federal (MPF) iniciou um procedimento para investigar uma possível conexão do Brasil com a rede de exploração sexual do criminoso condenado Jeffrey Epstein. A ação ocorre após a Justiça dos Estados Unidos liberar mais 3 milhões de documentos relacionados ao caso, que revelaram novos detalhes sobre as atividades do bilionário.
Denúncia envolvendo mulher de Natal é analisada em sigilo
Uma denúncia registrada no MPF do Rio Grande do Norte passou a ser analisada pela Unidade Nacional de Enfrentamento do Tráfico Internacional de Pessoas e do Contrabando de Migrantes (UNTC), em Brasília. O caso envolve uma mulher residente nos arredores de Natal, possivelmente aliciada para a prática de atos sexuais com Jeffrey Epstein nos Estados Unidos.
O MPF não divulgou detalhes específicos, informando que as investigações correm em sigilo absoluto, "dada a sensibilidade do tema e a necessidade de proteção das vítimas". A UNTC confirmou que acompanha atentamente a divulgação dos arquivos do caso Epstein e está vigilante sobre fatos que envolvam cidadãos brasileiros ou tenham sido praticados em território nacional.
Documentos revelam intermediação de brasileira para encontro com jovem de Natal
Os milhões de novos documentos divulgados nas últimas semanas mostram que Epstein mantinha relações pessoais com modelos brasileiras, auxiliava-as financeiramente e possivelmente as empregava como assistentes. As conversas registradas datam pelo menos desde 2006, antes da primeira prisão do bilionário.
Uma apuração da BBC News Brasil revelou que uma brasileira com frequência nos arquivos mantinha uma relação de proximidade e dependência financeira com Epstein. Entre 2009 e 2013, ela não apenas solicitava recursos para despesas pessoais e procedimentos estéticos, mas também apresentava outras mulheres ao bilionário.
Em janeiro de 2011, registros mostram que essa brasileira intermediou a ida de uma jovem de Natal para os Estados Unidos - exatamente o caso que o MPF investiga. Em mensagens, ela descreveu que a moça não falava inglês, nunca havia viajado internacionalmente e vinha de uma família simples, sugerindo que viajassem juntas para facilitar o trajeto.
A brasileira enviou fotos da jovem a Epstein, afirmando que ele iria "adorá-la". A resposta do bilionário foi um pedido por mais imagens, especificando que deveriam ser de "lingerie ou biquíni". Embora Epstein tenha escrito posteriormente que a ajuda poderia ser "mal interpretada", a intermediária continuou a sugerir o encontro, propondo Paris como local e reforçando que a jovem era o "tipo" dele.
Natal aparece em múltiplos contextos nos arquivos de Epstein
A capital potiguar é mencionada também em outro contexto nos documentos. O agente de modelos Jean-Luc Brunel, conhecido parceiro de Epstein, relatou ao bilionário que esteve em Natal em 2010. Brunel foi encontrado morto na prisão em Paris em 2022, onde estava detido desde o início de uma investigação por assédio sexual e estupro contra jovens entre 15 e 18 anos na França - acusações que ele negava.
Histórico do caso Epstein e suas repercussões internacionais
O escândalo envolvendo Jeffrey Epstein tramita há anos na Justiça americana. As primeiras denúncias formais surgiram em 2005, quando a polícia de Palm Beach, na Flórida, investigou o bilionário por abuso sexual de menores. Em 2008, ele se declarou culpado por exploração de menores, cumprindo 13 meses de prisão.
Em julho de 2019, Epstein foi preso e formalmente acusado de abuso de menores e operação de rede de exploração sexual. De acordo com acusações, entre 2002 e 2005, ele pagava centenas de dólares para que meninas fossem até seus imóveis e realizassem atos sexuais, incentivando-as também a recrutar outras garotas.
Dezenas de mulheres acusaram Epstein de forçá-las a prestar serviços sexuais a ele e a convidados em uma ilha particular no Caribe e em propriedades em Nova York, Flórida e Novo México. O governo americano estima que o bilionário explorou sexualmente mais de 250 meninas menores de idade.
Epstein foi encontrado morto na prisão em agosto de 2019, com a autópsia concluindo suicídio. Dois dias antes, assinou testamento deixando patrimônio superior a US$ 577 milhões. Após sua morte, as acusações foram retiradas, mas procuradores afirmaram que poderiam responsabilizar outras pessoas envolvidas no esquema.
A UNTC, estrutura especializada do MPF, centraliza todas as investigações e ações judiciais do país relacionadas a tráfico internacional de pessoas e contrabando de migrantes, diante da complexidade desses casos. A unidade mantém vigilância constante sobre desenvolvimentos internacionais que possam ter conexões com o Brasil.



