As chances de um novo El Niño se desenvolverem em 2026 ultrapassam os 90%, de acordo com meteorologistas da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). O fenômeno, amplamente estudado e associado a impactos climáticos globais, tem probabilidade de 60% para o trimestre maio-junho-julho, elevando-se para mais de 90% a partir da primavera de setembro. Isso significa que é praticamente certo que o El Niño ocorrerá na segunda metade do ano.
Previsões de intensidade geram especulações
Atualmente, vários veículos de imprensa noticiam a possibilidade de um El Niño de forte intensidade para o período 2026-2027. No entanto, prever a intensidade com tanta antecedência é desafiador. Modelos de última geração conseguem estimar anomalias de temperatura e impactos com meses de antecedência, mas previsões de longo prazo apresentam incertezas significativas. O Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI) destaca que as previsões feitas nesta época do ano têm alta incerteza quanto à intensidade do ENOS (El Niño Oscilação Sul).
Origens e impactos do El Niño
O nome El Niño surgiu no século XIX, quando pescadores peruanos observaram aquecimento anormal das águas próximo ao Natal, associando-o ao nascimento do "Menino Jesus". Na década de 1920, o cientista Gilbert Thomas Walker identificou a relação com diferenças de pressão atmosférica e ventos. A partir dos anos 1980, o fenômeno passou a ser extensamente estudado, especialmente após o El Niño intenso de 1982-83.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial centro-leste, fazendo parte do ciclo ENOS. Seu oposto é a La Niña, que resfria as águas. Na América do Sul, os impactos incluem aumento de chuvas no sul do Brasil, litoral do Peru e Equador; secas na Amazônia e Nordeste; ondas de calor no centro do Brasil; e redução de furacões no Atlântico Norte. Grandes secas na Amazônia ocorreram em anos de El Niño, como 1877-79, 1925, 1972-73, 1983, 1986, 1992-93, 1998, 2010, 2015-16 e 2023-24, embora também possam ocorrer sem o fenômeno.
El Niño e desastres climáticos
O El Niño não causa desastres diretamente, mas aumenta a probabilidade de eventos extremos. Em 2023-2024, por exemplo, combinações de calor e seca intensificaram incêndios na Amazônia e Pantanal, e mais de 200 botos-cor-de-rosa morreram por estresse térmico. No Rio Grande do Sul, inundações generalizadas ocorreram na primavera de 2023 e outono de 2024. A gravidade dos desastres depende também da exposição, vulnerabilidade e capacidade de mitigação da população.
El Niño 2026-2027: o que se sabe
As previsões atuais indicam a atuação de um novo El Niño entre a primavera de 2026 e o verão de 2027, mas a intensidade ainda é incerta. Segundo fontes oficiais, há 25% de chance de intensidade forte e 25% de muito forte (quando a temperatura do Pacífico central supera em mais de 2°C o normal). No entanto, o IRI ressalta que as previsões nesta época do ano têm alta incerteza. Será necessário aguardar o próximo inverno para previsões mais precisas.
Importante destacar que a previsão sazonal para maio-julho não indica influência clara do El Niño nas chuvas no Brasil. Não há relação direta entre intensidade do fenômeno e gravidade dos impactos, embora episódios mais intensos tendam a tornar os efeitos mais evidentes. Notícias recentes sobre secas severas na Amazônia e Nordeste ou chuvas catastróficas no Sul não são sustentadas por dados científicos confiáveis, sendo muitas vezes especulativas.
Regina Célia dos Santos Alvalá é diretora do Cemaden. José Antônio Marengo é coordenador geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden. Marcelo Seluchi é doutor em Ciências Meteorológicas na Universidade de Buenos Aires. Este texto foi originalmente publicado no site do The Conversation Brasil.



