Justiça da Bahia confirma condenação de pastores por crime hediondo contra adolescente
A Justiça da Bahia manteve, de forma unânime, a condenação dos pastores Joel Miranda e Fernando Aparecido da Silva pela morte do adolescente Lucas Terra, ocorrida em março de 2001. A decisão foi tomada por três desembargadores durante audiência realizada nesta quinta-feira (5), em Salvador, confirmando a sentença de 21 anos de prisão em regime fechado.
Crime brutal e longa espera por justiça
O caso chocou a capital baiana há mais de duas décadas. Lucas Terra tinha apenas 14 anos quando foi estuprado, queimado vivo e teve seu corpo abandonado em um terreno baldio. A condenação dos acusados só veio à tona 22 anos depois, durante júri realizado em abril de 2023.
Apesar da condenação, os pastores permaneciam em liberdade aguardando recursos. Com a decisão desta quinta-feira, a legislação permite que seja requerida a execução da pena. A família de Lucas já informou que formalizará o pedido para que os homens sejam presos.
Família celebra decisão histórica
O irmão da vítima, José Carlos Terra Júnior, expressou alívio e esperança: "Mesmo que tardiamente, a justiça está quase chegando. O TJ-BA não poderia tomar outra decisão que não fosse a confirmação da condenação. Estamos felizes, porém ainda falta uma última etapa: que é ver os assassinos condenados atrás das grades de uma prisão! Só assim o ciclo de impunidade será extinto".
A mãe de Lucas, Marion Terra, também comemorou o resultado nas redes sociais, emocionada: "No júri eu cantei: 'Tu é fiel, Senhor'. E eu quero dizer mais uma vez: 'Tu é fiel, Senhor'. Eu estou muito feliz. A gente esperou até o final e a resposta do céu veio. Nós vencemos!".
Detalhes do júri e contradições nos depoimentos
O júri dos pastores durou dois dias intensos, com audiências em 25 e 27 de abril de 2023. A pena inicial foi de 18 anos, mas recebeu três agravantes:
- Motivo torpe
- Emprego de meio cruel
- Impossibilidade de defesa da vítima
Durante o processo, foram ouvidas cinco testemunhas de acusação e uma de defesa no primeiro dia. A testemunha de defesa apresentou contradições na fala, levando os advogados de acusação a pedirem acareação. Jorge Fonseca, um dos advogados de acusação, explicou: "Verificamos inconsistências nos depoimentos de algumas testemunhas com o dele, então a acareação serve para pôr em cheque e esclarecer o depoimento".
Testemunhos emocionantes e reveladores
Entre as testemunhas de acusação estava a própria mãe da vítima, Marion Terra, que se emocionou profundamente durante seu depoimento. Outras testemunhas relataram ter visto Lucas na noite de seu desaparecimento, na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), no bairro da Santa Cruz.
Uma testemunha afirmou ter recebido orientação de um pastor da IURD para suspender as buscas independentes por Lucas Terra. No segundo dia do júri, que durou aproximadamente 10 horas, as esposas dos dois pastores testemunharam a favor dos réus.
A advogada de acusação, Tuany Sande, destacou contradições no depoimento da companheira do pastor Fernando Aparecido da Silva, que inicialmente afirmou ter encontrado Lucas em Copacabana, no Rio de Janeiro, mas nos autos do processo declarou não se lembrar se teve contato com o adolescente.
Defesa foca em rotina dos acusados
A defesa dos réus concentrou-se em demonstrar a rotina dos pastores na semana do desaparecimento e morte de Lucas. As esposas dos religiosos afirmaram estar com os réus na noite de 21 de março de 2001, quando Lucas teria desaparecido.
Além disso, um bispo e dois pastores da Igreja Universal testemunharam que Lucas era um jovem dedicado à religião e que os fiéis se comprometeram a procurá-lo após o desaparecimento. Nove das dez testemunhas de acusação foram ouvidas, sendo que uma já havia prestado depoimento no primeiro dia.
A decisão unânime do Tribunal de Justiça da Bahia representa um marco na longa busca por justiça da família Terra, que aguardou mais de duas décadas para ver confirmada a condenação dos responsáveis por um dos crimes mais brutais já registrados no estado.



