O Banco Central (BC) determinou, nesta quinta-feira (15), a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, empresa que atuava sob o nome de Reag Trust DTVM. A decisão foi tomada em razão de graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional (SFN), conforme comunicado oficial do órgão regulador.
Decisão do BC e impacto no sistema
Segundo o BC, a CBSF se enquadrava no segmento S4 da regulação prudencial, destinado a instituições de pequeno porte com regras mais simplificadas. Por esse motivo, a autarquia ressaltou que eventuais problemas na empresa não representam um risco relevante para a estabilidade do sistema financeiro brasileiro. A instituição representava menos de 0,001% do ativo total ajustado do SFN.
Com a medida, todas as operações da CBSF foram encerradas imediatamente. No entanto, o BC esclareceu que a liquidação atinge apenas a instituição administradora, e não os mais de 80 fundos de investimento que ela gerenciava. Esses fundos permanecem ativos, mas precisarão encontrar novas administradoras para assumir sua gestão.
Em nota, o Banco Central afirmou que continuará adotando as medidas necessárias para apurar a responsabilidade da empresa no suposto esquema de fraude envolvendo o Banco Master. Os bens dos controladores e ex-administradores da CBSF já se encontram bloqueados por determinação legal.
Trajetória e controvérsias do Grupo Reag
A CBSF era controlada pelo Grupo Reag, um conglomerado financeiro independente fundado por João Carlos Mansur em 2013. O grupo chegou a ser uma das maiores gestoras independentes do país, administrando um patrimônio de R$ 299 bilhões para clientes diversos, desde pessoas físicas até grandes investidores institucionais.
A Reag Investimentos, parte do grupo, foi a primeira gestora de patrimônio a ter suas ações negociadas na bolsa de valores brasileira. Contudo, a empresa passou por uma série de reestruturações e controvérsias nos últimos anos.
Em outubro do ano passado, a holding cancelou seu registro como companhia aberta. Pouco antes, em setembro, a Reag Investimentos havia sido alvo da Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que investigava um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A empresa foi citada nas investigações sobre o uso de fundos de investimento para ocultação de recursos.
Fora do mercado financeiro, o grupo ganhou notoriedade ao patrocinar o tradicional Cine Belas Artes, em São Paulo, que passou a se chamar REAG Belas Artes em janeiro de 2024. A parceria, no entanto, foi encerrada em dezembro.
Envolvimento no caso Master e Operação Compliance Zero
O fundador João Carlos Mansur está entre os investigados na segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal. A operação apura um suposto esquema de fraudes financeiras no Banco Master, que já teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo BC em novembro.
Na quarta-feira (14), um dia antes da decisão do BC sobre a CBSF, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra Mansur. A investigação identificou um esquema de captação de recursos, aplicação em fundos e desvio para o patrimônio pessoal do controlador do Master, Daniel Vorcaro, e seus familiares. Nesta fase, foram bloqueados bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões.
O Banco Central reiterou em seu comunicado que o resultado das apurações sobre a CBSF poderá levar à aplicação de sanções administrativas e a comunicações às autoridades competentes, seguindo a legislação em vigor.