Zuckerberg nega acesso de menores de 13 anos no Instagram, mas evidências apontam público-alvo
Zuckerberg nega acesso de menores no Instagram, mas há evidências

CEO da Meta testemunha em julgamento histórico sobre vício em redes sociais entre jovens

O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, afirmou repetidamente nesta quarta-feira (18), durante um julgamento histórico que discute vício em redes sociais entre jovens, que a empresa dona do Facebook e Instagram não permite o acesso de crianças menores de 13 anos em suas plataformas. As declarações foram feitas mesmo após Zuckerberg ser confrontado com evidências que sugerem que esse grupo era um público-alvo importante para a companhia.

Depoimento aguardado e reações do bilionário

O depoimento de Zuckerberg era o mais esperado do julgamento, o primeiro de uma série de casos que podem estabelecer um precedente legal para milhares de processos movidos por famílias americanas contra as principais plataformas de redes sociais. Esta foi a primeira vez que o bilionário se pronunciou perante um júri sobre a segurança de suas plataformas. Inicialmente, ele se mostrou bastante contido, conforme relatado por um jornalista da AFP presente no tribunal. Posteriormente, deu sinais de incômodo, balançando a cabeça e gesticulando ao se dirigir ao júri.

Contexto do julgamento e alegações da demandante

O julgamento deve continuar até o final de março, quando o júri decidirá se o YouTube, do Google, e o Instagram, da Meta, foram responsáveis pelos problemas de saúde mental de Kaley G.M., de 20 anos. Ela começou a usar o YouTube aos 6 anos, o Instagram aos 11 e, mais tarde, TikTok e Snapchat. Kaley alega que as empresas buscaram lucrar ao viciar crianças em seus serviços, mesmo sabendo que as redes sociais poderiam prejudicar sua saúde mental. Ela afirma que os aplicativos alimentaram sua depressão e pensamentos suicidas, buscando responsabilizar as empresas por esses danos.

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Confronto com evidências e documentos internos

Mark Lanier, advogado de Kaley, pressionou Zuckerberg sobre a facilidade com que a jovem conseguiu se cadastrar na plataforma, apesar da restrição de idade. A norma está presente nos termos de uso, um texto que, segundo o advogado, não se pode esperar que seja lido por uma criança. Zuckerberg foi confrontado com um documento interno que indicava que o Instagram tinha 4 milhões de usuários menores de 13 anos em 2015, época em que a demandante começou a usar o aplicativo, e que 30% das crianças entre 10 e 12 anos nos Estados Unidos eram usuárias da rede social.

Uma apresentação interna do Instagram de 2018 afirmava: "Se quisermos vencer em grande escala com adolescentes, precisamos trazê-los quando ainda são pré-adolescentes". A Meta e o Google negaram as acusações, apontando para seus esforços em adicionar recursos que mantêm os usuários seguros. Zuckerberg respondeu que Lanier estava "distorcendo" suas declarações.

Respostas da Meta e discussões sobre segurança

O CEO disse que a Meta "teve diferentes conversas ao longo do tempo para tentar criar diferentes versões de serviços que as crianças possam usar com segurança". Por exemplo, ele mencionou que a empresa discutiu criar uma versão do Instagram para crianças menores de 13 anos, mas o projeto não foi adiante. Em um e-mail, Nick Clegg, então vice-presidente de assuntos globais da Meta, disse a Zuckerberg e outros executivos de alto escalão: "temos limites de idade que não são aplicados (inaplicáveis?)" e observou que políticas diferentes para Instagram e Facebook tornam "difícil afirmar que estamos fazendo tudo o que podemos".

Zuckerberg respondeu argumentando que é difícil para desenvolvedores de aplicativos verificar a idade dos usuários e que a responsabilidade deveria ser dos fabricantes de dispositivos móveis.

Questões sobre metas de tempo de uso e mudanças na abordagem

O executivo também enfrentou perguntas sobre sua declaração ao Congresso de que não deu às equipes do Instagram a meta de maximizar o tempo gasto no aplicativo. Lanier mostrou aos jurados e-mails de 2014 e 2015 nos quais Zuckerberg estabelecia objetivos de aumentar o tempo gasto no aplicativo em porcentagens de dois dígitos. Zuckerberg rebateu que, embora a Meta anteriormente tivesse metas relacionadas à quantidade de tempo que os usuários passavam no aplicativo, desde então mudou sua abordagem.

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"Antes, sim, tínhamos objetivos relacionados com o tempo", admitiu Zuckerberg. Ele afirmou, no entanto, que a meta da empresa sempre foi "criar serviços úteis que ajudem as pessoas a se conectar com quem quiserem e a conhecer o mundo".

Impacto do julgamento e casos futuros

O julgamento vai determinar se o Google e a Meta projetaram deliberadamente suas plataformas para promover um uso compulsivo entre os jovens. Junto com outros dois julgamentos semelhantes que ocorrerão em meados do ano em Los Angeles, este caso busca criar um precedente para a resolução de milhares de denúncias que culpam as redes sociais por uma epidemia de depressão, ansiedade, transtornos alimentares e suicídio entre os jovens.

O processo se concentra exclusivamente no design dos aplicativos, seus algoritmos e recursos de personalização, uma vez que a legislação dos EUA concede às plataformas imunidade quase absoluta contra a responsabilização por conteúdos gerados pelos usuários. TikTok e Snapchat, também citados no processo, chegaram a acordos confidenciais com a autora da ação antes do início do julgamento.