TikTok se transforma em plataforma para exaltação de Hitler e ideologia nazista
Uma investigação detalhada publicada no domingo (22) expôs uma realidade alarmante: perfis no TikTok estão disseminando conteúdo que exalta Adolf Hitler e o regime nazista, tanto de maneira explícita quanto por meio de mecanismos de disfarce sofisticados. No Brasil, a apologia a essa ideologia é considerada crime, conforme estabelecido pela Lei Federal 7.716/1989, que prevê penas de reclusão para quem pratica, induz ou incita discriminação com base em raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
Estratégias de disfarce e a dificuldade de moderação
Especialistas em discurso de ódio, Liriam Sponholz e Yasmin Curzi, alertam que grupos neonazistas e supremacistas estão utilizando códigos, hashtags, emojis e siglas para contornar os sistemas de moderação da plataforma e evitar responsabilização legal. Essas táticas, conhecidas como dog whistle ou "apito de cachorro", consistem em sinais de duplo sentido que passam despercebidos pela maioria dos usuários, mas são claramente reconhecidos por aqueles familiarizados com a ideologia extremista.
"As postagens evitam usar símbolos explicitamente citados nas legislações, como a suástica, e também fazem questão de não mencionar diretamente certos termos, como 'Hitler'", explica Liriam Sponholz, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais (INCT-DSI). Ela destaca que, embora a apologia esteja presente, do ponto de vista jurídico, nem sempre é interpretada como tal devido à falta de explicitude, o que complica a comprovação de intenção nas redes sociais.
Alcance global e presença no Brasil
Ao longo de quatro semanas de monitoramento, foram identificadas ao menos 62 contas que publicaram conteúdos de exaltação ao nazismo. Essas postagens foram encontradas em diversos idiomas, incluindo português, e embora não seja possível confirmar oficialmente a localização dos criadores, a plataforma tikip.us estima que 15 dessas contas estariam no Brasil. As demais foram atribuídas a países como Estados Unidos, Arábia Saudita, Alemanha, Belarus, Reino Unido e Polônia.
Um exemplo preocupante é um carrossel de fotos que exibe a frase em inglês "because I remember you" sobreposta a uma imagem que aparenta retratar Adolf Hitler. Nos comentários, mensagens como "meu herói" e "ele estava fazendo a coisa certa" revelam a adesão à ideologia. Em outro caso, uma trend em português faz referência à morte de Hitler em 30 de abril de 1945, atribuindo um sentido positivo ao episódio, com publicações que somam centenas de milhares de visualizações e milhares de curtidas.
Conteúdos explícitos e falhas na moderação
Apesar das tentativas de disfarce, o g1 também encontrou com facilidade publicações explícitas. Um vídeo mostra um homem dançando com o símbolo da suástica girando ao fundo, enquanto outro exibe a águia imperial nazista com a cruz de ferro e a frase "um dia as pessoas vão perceber que ele estava certo". Esses conteúdos acumulam milhares de visualizações e interações, indicando uma circulação significativa.
O TikTok afirmou que os conteúdos identificados foram removidos por violarem as Diretrizes da Comunidade, que proíbem explicitamente a promoção de ideologias de ódio, antissemitismo e o uso de símbolos associados a movimentos extremistas. A plataforma destacou que treina regularmente seus profissionais de segurança para aprimorar a detecção de comportamento de ódio e consulta acadêmicos para atualizar suas políticas. No entanto, a reportagem constatou que filtros da plataforma nem sempre impedem o uso de códigos nazistas, como símbolos em bios de perfis.
Implicações legais e responsabilidade social
Yasmin Curzi, professora de direito da FGV, ressalta que a apologia ao nazismo é enquadrada como racismo, crime inafiançável e imprescritível segundo a Constituição brasileira. "Esses posts deveriam ser removidos pelo TikTok e não poderiam ser recomendados ou exibidos sem login, o que amplia sua disseminação", conclui. A lei brasileira prevê penas de reclusão de um a cinco anos e multa para quem fabrica, comercializa ou distribui símbolos nazistas, com atualizações em 1994 e 1997 para incluir referências diretas ao regime.
Diante desse cenário, especialistas alertam para a necessidade de maior rigor na moderação e na aplicação das leis, a fim de combater a propagação de discursos de ódio que ameaçam a coesão social e violam direitos fundamentais. A reportagem serve como um chamado à ação para plataformas, autoridades e sociedade civil no enfrentamento a essa tendência perigosa.



