TikTok abriga perfis que exaltam nazismo com códigos para driblar moderação
Uma investigação conduzida pelo g1 revelou a existência de ao menos 62 contas no TikTok que publicam conteúdos que exaltam Adolf Hitler e a ideologia nazista, tanto de forma explícita quanto por meio de códigos elaborados para tentar burlar a moderação da plataforma e a legislação brasileira, que criminaliza a apologia ao regime. A descoberta partiu de uma denúncia enviada por um leitor, que preferiu manter o anonimato por questões de segurança.
"Encontrei esses perfis a partir de vídeos de denúncia publicados por outros usuários do próprio TikTok. Depois de acessar um deles, a plataforma passou a me recomendar cada vez mais conteúdos semelhantes", relatou o denunciante. Durante quatro semanas de monitoramento, iniciado no fim de janeiro, o g1 constatou que vídeos, fotos e memes com referências nazistas passaram a ser exibidos com frequência na página "Para Você", a seção inicial do aplicativo.
Estratégia de disfarce com 'apitos de cachorro'
A maioria das postagens identificadas utiliza hashtags, emojis e siglas específicas para fazer alusão à ideologia, embora também existam materiais totalmente explícitos. Especialistas em discurso de ódio, como as pesquisadoras Liriam Sponholz e Yasmin Curzi, analisaram parte do conteúdo e alertam que muitos desses materiais, mesmo com mecanismos de disfarce, podem configurar apologia ao nazismo.
Essas táticas são conhecidas como "dog whistle" ou "apito de cachorro", um sinal com duplo sentido que passa despercebido para a maioria das pessoas, mas é perfeitamente reconhecido por quem tem familiaridade com a referência. "Eles evitam usar símbolos explicitamente citados nas legislações, como a suástica, e também fazem questão de não mencionar diretamente certos termos. Por exemplo, deixam de citar de forma explícita palavras como 'Hitler'", explica Liriam Sponholz, que integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais.
Ela ressalta que, embora a apologia esteja presente, do ponto de vista jurídico, nem sempre é interpretada como tal justamente por não ser explícita, o que complica a comprovação da intenção nas redes sociais. Ainda assim, não se pode usar essa dificuldade como justificativa para permitir que a apologia ao nazismo continue circulando, adverte a pesquisadora.
Perfis internacionais e conteúdo viral
As postagens foram encontradas em vários idiomas, incluindo português, e a plataforma tikip.us, que estima a localização de contas do TikTok, indica que 15 das 62 analisadas estariam no Brasil. As demais foram atribuídas a países como Estados Unidos, Arábia Saudita, Alemanha, Belarus, Reino Unido e Polônia.
Em um dos casos, um carrossel de fotos exibe a frase em inglês "because I remember you" sobreposta a uma imagem que aparenta retratar Adolf Hitler. Nos comentários, mensagens como "meu herói", "meu líder" e "ele estava fazendo a coisa certa" evidenciam a exaltação. Em outro perfil com conteúdo em português, foi identificada uma "trend" em que usuários faziam referência à morte de Hitler, em 30 de abril de 1945, atribuindo ao episódio um sentido positivo.
Um post dessa conta, publicado em junho de 2025, soma 371 mil visualizações e 46 mil curtidas. Entre os mais de 660 comentários, houve tanto críticas quanto defesas do conteúdo. "Amigo, mas se o H [Hitler] estivesse vivo, vc não estaria vivo kkkk se toca, vc é latino-americano", escreveu um usuário. Outro respondeu: "Humor? HUMOR? Claro, com um cara que matou pessoas pela fé, pela cor, pelo pensamento diferente".
Conteúdos explícitos e falhas na moderação
Apesar da prevalência de códigos, o g1 encontrou com facilidade publicações explícitas. Ao pesquisar por termos e símbolos associados a movimentos neonazistas, a ferramenta de busca do TikTok não impediu que esse tipo de postagem fosse exibido. Foi localizado, por exemplo, um vídeo em que um homem aparece dançando com o símbolo da suástica girando ao fundo. O perfil ainda trazia, na biografia, a frase "White Power", expressão comumente associada a grupos supremacistas.
Outro vídeo exibe a águia imperial nazista com a cruz de ferro e a frase em inglês "um dia as pessoas vão perceber que ele estava certo". Essa publicação acumulou pouco mais de 51 mil visualizações, além de 6,7 mil curtidas e 155 comentários. Em certos casos, o TikTok exibe avisos de que termos podem estar associados a conteúdos que violam as diretrizes, mas o mesmo símbolo aparece na biografia de perfis, indicando que os filtros da plataforma não conseguiram impedir totalmente seu uso.
Legislação brasileira e posicionamento do TikTok
No Brasil, exaltar o ideário nazista, usar símbolos, distribuir emblemas ou fazer propaganda da doutrina é crime, com pena de reclusão, conforme a Lei Federal 7.716/1989. A apologia ao nazismo se enquadra nessa legislação, que pune a prática, indução ou incitação à discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. "A apologia ao nazismo é racismo, configura crime e viola a Convenção Interamericana contra o Racismo, ratificada pelo Brasil em 2023", afirma Yasmin Curzi, professora de direito da FGV.
O TikTok foi procurado pelo g1 e compartilhou algumas das postagens encontradas. A rede social afirmou que esses conteúdos foram removidos por violarem as Diretrizes da Comunidade. "Nós treinamos regularmente nossos profissionais de segurança para ajudá-los a aprimorar a detecção de comportamento de ódio, símbolos, termos e estereótipos ofensivos, e para ajudá-los a identificar e proteger o contradiscurso", disse a plataforma em nota.
A empresa também destacou que bloqueia buscas por termos relacionados a ódio ou ideologias de ódio e redireciona para as Diretrizes da Comunidade. No relatório de moderação mais recente, referente ao terceiro trimestre de 2025, 98,8% dos conteúdos que violaram as políticas de Segurança e Civilidade foram removidos proativamente, sendo 87% antes de receberem qualquer visualização.



