Golpe com inteligência artificial promete cura milagrosa para catarata nas redes sociais
Circulam intensamente nas redes sociais, especialmente no Instagram e Facebook, anúncios fraudulentos que oferecem um suposto remédio milagroso para recuperação da visão embaçada e tratamento de catarata. A campanha publicitária falsa, que utiliza recursos avançados de inteligência artificial para criar personagens e depoimentos convincentes, tem enganado diversos usuários desavisados que buscam soluções para problemas oculares.
O produto inexistente e os anúncios fraudulentos
Desde o início de fevereiro, viralizaram perfis e anúncios que promovem o "Renova Vision", um suposto medicamento que traria benefícios extraordinários para pacientes com problemas de visão. Ao clicar nos links disponibilizados, os usuários são direcionados para conversas no WhatsApp com um atendimento automatizado que compartilha vídeos, áudios e fotografias de um médico fictício e pacientes satisfeitos.
Nenhum desses elementos possui qualquer fundamento na realidade: o Renova Vision não existe como produto registrado, e tanto o profissional médico quanto os depoimentos foram inteiramente fabricados através de tecnologias de inteligência artificial. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), quando consultada, confirmou que o produto não possui registro algum, classificando-o explicitamente como "clandestino".
Estratégias de persuasão e falsificação sofisticada
Nos materiais fraudulentos, os golpistas empregam diversas táticas para convencer potenciais vítimas:
- No áudio falso, o suposto médico recomenda que os usuários permaneçam na conversa, alegando que o produto está se esgotando rapidamente devido à importação de matéria-prima dos Estados Unidos e autorização do Ministério da Saúde
- Na fotografia manipulada, o médico fictício aparece ao lado da apresentadora Ana Maria Braga, supostamente como consumidora do produto, com marcas visíveis de manipulação por IA quando ampliada
- Nos vídeos falsos, pacientes gerados artificialmente atestam resultados extraordinários, incluindo o desaparecimento completo da catarata em poucos meses
O esquema inclui até mesmo a apresentação de CNPJs de empresas que seriam responsáveis pela encapsulação e distribuição do produto inexistente, com promessa de entrega de 12 frascos e opções de pagamento variando entre R$ 688,98 e R$ 1.228 através de boleto, cartão de crédito ou PIX.
Vítimas do golpe e versões alternativas
Usuários que efetuaram pagamentos relatam problemas no portal Reclame Aqui, incluindo falta de informações de rastreamento e desaparecimento completo dos vendedores após a transação. Uma mensagem típica descreve: "Efetuei uma compra do produto Renova Vision para minha mãe no dia 05/01/2026. O boleto veio de R$ 688,98 e efetuei o pagamento na Lotérica. Porém, após efetuar o pagamento não recebi mais nenhuma informação de rastreamento e nem consegui mais contato".
No Facebook, circula outra versão do mesmo golpe, desta vez utilizando deepfake do conhecido médico Drauzio Varella. O próprio profissional já se manifestou publicamente, afirmando categoricamente: "Nunca fiz nem farei propaganda de remédios. Essas propagandas são golpes de criminosos que usam minha imagem".
Comprovação técnica da falsificação
Análises técnicas realizadas com ferramentas especializadas confirmam a natureza fraudulenta dos materiais:
- O SynthID Detector do Google identificou que todos os vídeos e a foto com Ana Maria Braga foram produzidos, parcial ou totalmente, com recursos de inteligência artificial da própria empresa
- O Hiya Deepfake Detector atribuiu ao áudio uma pontuação de apenas 10 em uma escala de 0 a 100 de autenticidade, indicando probabilidade extremamente elevada de ser sintético
Estas ferramentas utilizam marcas d'água digitais e análises avançadas para detectar conteúdos fabricados sinteticamente, mesmo quando imperceptíveis ao olho humano.
Alerta oficial da Anvisa e recomendações
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária emitiu alerta formal sobre o caso, afirmando: "Não existe nenhum medicamento oficialmente registrado na Anvisa com esse nome, logo esse produto é clandestino e não pode ser usado. Ao público, recomenda-se atenção e desconfiança de promessas mirabolantes".
A autoridade sanitária reforça que todos os medicamentos devem possuir registro oficial para serem comercializados e anunciados, e orienta os consumidores a verificarem a regularidade dos produtos no portal oficial da Agência através da Consulta de Produtos antes de qualquer aquisição.
As peças publicitárias fraudulentas permanecem ativas desde dezembro, conforme registros da Biblioteca de Anúncios da Meta (controladora do Facebook, Instagram, Messenger e Threads), sendo direcionadas a usuários específicos com base em idade, gênero, localização e interesses pessoais.



