Um dos mais emblemáticos símbolos culturais de Campina Grande e de toda a Paraíba, o Parque do Povo celebra nesta quinta-feira (14) quatro décadas de existência. Conhecido como a casa do Maior São João do Mundo, o espaço, carinhosamente chamado de “PP”, passou por transformações significativas ao longo dos últimos 40 anos e continua sendo o ponto de encontro de milhares de paraibanos para eventos culturais, familiares e religiosos.
Origem e planejamento
O Parque do Povo foi concebido levando em conta o crescimento urbano, econômico e cultural da Rainha da Borborema. Sua construção começou a tomar forma no início dos anos 1980, com o objetivo de criar uma área de convivência para sediar eventos em uma região central de Campina Grande, anteriormente conhecida como Coqueiros de Zé Rodrigues, próxima ao Açude Novo.
O planejamento também considerou a evolução dos festejos juninos da cidade, que antes ocorriam nos bairros e passaram a se concentrar na área que viria a abrigar o Parque do Povo, mesmo antes de sua inauguração oficial, em 1983. Naquela época, o local ainda sem estrutura definitiva recebia um “palhoção rústico”, onde artistas como Capilé se apresentavam de forma modesta, sem imaginar que estavam contribuindo para o que décadas depois seria reconhecido como o Maior São João do Mundo.
A pirâmide: símbolo do parque
O arquiteto Carlos Alberto Melo de Almeida, responsável pelo projeto da pirâmide do Parque do Povo — hoje um dos principais cartões-postais de Campina Grande e ícone da festa junina — explicou em entrevista à Rede Paraíba, em 2023, que o espaço surgiu do desejo de construir uma área coberta dentro do parque, inicialmente chamada de “forródromo”.
“O prefeito Ronaldo Cunha Lima me contratou e disse que queria fazer uma festa de São João naquele local, onde todo mundo via que não tinha futuro. Ronaldo disse: ‘Faça um forródromo aí porque eu quero dançar no forródromo’, só isso que ele disse”, recordou Carlos Alberto, que na época da entrevista tinha 85 anos e residia em Recife. Ele não foi localizado pela reportagem do g1.
Durante a construção da pirâmide, que se tornou o principal ponto de referência do Parque do Povo, a população local percebeu a magnitude do projeto. “Todo mundo tem sua parcela de carinho com o que vai fazer. Senti uma sensação boa de estar oferecendo aquilo para todo aquele contexto, oferecendo à comunidade. Foi uma surpresa para todo mundo que passava ali, aos poucos a Pirâmide tornou-se um marco de Campina Grande”, declarou o arquiteto.
Inauguração e eventos históricos
A ideia saiu do papel e, com a imponente pirâmide finalizada, em 14 de maio de 1986 o Parque do Povo foi oficialmente inaugurado pelo então prefeito Ronaldo Cunha Lima. O local tornou-se palco de momentos históricos para a cultura nordestina, recebendo artistas como Luiz Gonzaga, além de eventos religiosos, esportivos e até casamentos.
Ampliação histórica em 2024
Em 2024, o Parque do Povo passou pela maior ampliação de sua história recente, sendo interligado ao Parque Evaldo Cruz (Açude Novo), que também foi revitalizado e atualmente recebe parte da estrutura do Maior São João do Mundo durante os meses de junho e julho.
Com a ampliação, o parque ganhou 7.500 m², totalizando quase 40 mil m² de área. A obra, viabilizada por um empréstimo concedido à Prefeitura de Campina Grande, custou R$ 40 milhões, segundo a Secretaria de Obras da cidade. Ao todo, 34 imóveis foram desapropriados.
Atualmente, durante o São João, o Parque do Povo é dividido em áreas específicas: palco principal, ilhas de forró, ativações promocionais, camarotes, cidade cenográfica (que em 2025 foi construída no Parque Evaldo Cruz), restaurantes e quiosques.
Espaço de fé e afetos
Além da relação direta com o São João, o Parque do Povo é um importante espaço de fé e afetos. O local sedia o Encontro para a Consciência Cristã, evento evangélico realizado durante o período carnavalesco em Campina Grande. Em 2026, em sua 27ª edição, a Consciência Cristã reuniu um público circulante de 100 mil pessoas, a maioria concentrada no Parque do Povo. Durante o evento, o espaço é dividido em vários ambientes, como o plenário central e a Feira do Livro (FELICC), montada na pirâmide.
“Surgiu a ideia, ainda em 2002, de levarmos esse evento que estava em pleno crescimento para a principal praça de eventos da cidade, que até então vinha sendo utilizada apenas pelo São João (...) E deu muito certo! Estamos já há 23 anos no Parque do Povo, ou seja, a grande maior parte do tempo de existência da Consciência Cristã tem acontecido no Parque do Povo, esse grande pátio de eventos que está no coração da cidade de Campina Grande, isso tem feito com que o evento a cada ano tome uma proporção maior e uma repercussão maior, não só na cidade, mas para todo o Brasil”, disse o Pastor Euder Faber, Presidente da Visão Nacional para a Consciência Cristã (VINACC).
Durante o Carnaval da Paz, como ficaram conhecidos os eventos religiosos do período carnavalesco em Campina Grande, a pirâmide recebe milhares de exemplares religiosos. Já no São João, o espaço é palco para apresentações de quadrilhas juninas e, na noite de 12 de junho (Dia dos Namorados e véspera do Dia de Santo Antônio), torna-se um altar onde 100 casais selam a união em um casamento coletivo.
A professora Gisele Sampaio, ex-coordenadora do Casamento Coletivo, explica que o espaço se transforma para a cerimônia. “Esse evento de grande importância para o aspecto sociocultural que acontece há mais de três décadas e é importante para o local onde ele acontece até hoje, que é a pirâmide do Parque do Povo, esse espaço bucólico, exótico, único, dentro do contexto dessa singularidade que é o Parque do Povo, local onde se celebra um dos maiores festejos do Brasil. E o casamento coletivo não tinha como ficar fora de toda essa grandiosidade desse acontecimento”, afirma.
A cerimônia, que começou com 50 casais, hoje reúne 100 anualmente. “Aquele espaço abraçou, acolheu, deu vida, deu voz, deu verdade... Ele deu singularidade a um dos maiores acontecimentos da festa junina de Campina Grande, que é o tradicional casamento coletivo, e que eu tive a grata alegria de coordenar, de produzir durante décadas”, disse a professora.
Durante o São João, a pirâmide também recebe o maior bolo de milho do Brasil. Em 2025, o recorde foi alcançado pela 11ª vez, com o bolo medindo 49,41 m e pesando 692,14 quilos. Na mesma data, o Parque do Povo recebe milhares de forrozeiros que formam a maior quadrilha junina do Brasil, com 2,5 mil pessoas.
O decorador da pirâmide
José Sereco, decorador responsável pelas cores que enfeitam a pirâmide há décadas, compartilha sua emoção: “Colocar as primeiras carreiras de bandeira na pirâmide foi a coisa mais emocionante do mundo, porque era um São João pequeno, quando a gente pensava só na cidade e em se divertir (...) E a pirâmide é um canto que, para mim, é onde concentra as pessoas mais populares, as pessoas folclóricas da cidade, é o povo, é o turista que vem, se não passar aqui debaixo não é batizado! Para mim, Padre Cícero para o Juazeiro, é a pirâmide para Campina, entendeu?”
Ele explica que, mesmo após tantos anos, decorar a pirâmide continua sendo especial. “Essa energia de estar debaixo dela, de criar, colorir ela, criar ela, criar personagens para ela, colocar os santos, tudo isso só me dá um grande prazer e alegria. Tudo que eu tenho foi graças ao São João. Trabalhar nessa festa para mim hoje é o máximo assim em termos de profissionalismo. Conseguir fazer cenário em Campina, na minha terra, e ser visto por todo mundo, isso é fantástico! Então, para mim, a pirâmide é tudo! É a energia primordial da grande festa de São João”, finalizou.
São João 2026 de Campina Grande
A estrutura do São João 2026 de Campina Grande já começou a ser montada no Parque do Povo. A festa terá 33 dias de duração, de 3 de junho a 5 de julho. Segundo a empresa organizadora, um novo layout com ampliação de alguns espaços foi planejado para a 43ª edição do evento, que também contará com reforço na infraestrutura.
Inicialmente, está sendo montada a infraestrutura básica nas áreas que receberão restaurantes e barracas, para facilitar o planejamento dos comerciantes. O Parque Evaldo Cruz será completamente integrado ao espaço do Maior São João do Mundo, com instalação de postos médico e policial. Parte da cidade cenográfica também ficará no Açude Novo. As ilhas de forró e outros ambientes próximos à pirâmide, destinados a ativações, serão montados em seguida.



