Pantanal em risco: bioma mais aquecido em 40 anos pode perder sua característica alagável
Pantanal pode deixar de ser alagável após aquecimento recorde

Pantanal em risco: bioma mais aquecido em 40 anos pode perder sua característica alagável

O Pantanal, um dos ecossistemas mais icônicos do Brasil, enfrenta uma crise climática sem precedentes. Dados recentes indicam que este bioma registrou o maior aumento de temperatura entre todos os biomas brasileiros nos últimos 40 anos, com um acréscimo alarmante de 1,9°C na média. Paralelamente, as chuvas diminuíram significativamente, com uma queda de 10 mm nos índices pluviométricos ao longo de 45 anos. Essas mudanças estão colocando em risco a própria essência do Pantanal como uma área alagável, ameaçando sua rica biodiversidade e equilíbrio ecológico.

Estudo detalha tendências preocupantes de aquecimento e seca

As informações têm como base análises robustas do MapBiomas Atmosfera, do ERA5 (Serviço de Mudança Climática Copernicus) e um estudo publicado na revista científica Atmosphere por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A pesquisa, que avaliou as tendências de temperatura e precipitação de 1979 a 2024, evidencia que o Pantanal tem sido um dos ecossistemas com maior aquecimento e seca no país. Além disso, levantamentos do MapBiomas mostram que a região perdeu grande parte de sua superfície de água nas últimas quatro décadas, entre 1985 e 2024, com uma redução expressiva das áreas alagadas em relação à média histórica.

Impactos no pulso de inundação e biodiversidade

Os dados revelam períodos de seca mais longos, cheias mais curtas e menor permanência de água nas planícies. Esse cenário altera drasticamente o pulso natural de inundação, uma característica essencial que sustenta a biodiversidade local. O pulso de inundação é o principal motor de produtividade e ciclagem de nutrientes, conectando os ecossistemas aquáticos e terrestres por meio de cheias que podem durar meses. Quando o rio transborda, os nutrientes são levados para a planície, onde são transformados em matéria orgânica por diferentes organismos, sustentando cadeias alimentares terrestres e aquáticas.

Eduardo Reis Rosa, engenheiro agrônomo e coordenador da equipe Mata Atlântica e Pantanal do MapBiomas, explica: "A redução das chuvas atrasa e encurta o pulso de inundação, fazendo com que os rios demorem mais para transbordar e reduzindo o tempo e a extensão da lâmina d'água. Para a biodiversidade, isso isola baías e vazantes, reduzindo a oferta de alimento para aves e mamíferos aquáticos, além de transformar áreas úmidas em depósitos de matéria orgânica seca que facilita incêndios."

Causas multifatoriais: mudanças climáticas e ações humanas

Essa alteração está associada tanto ao avanço das mudanças climáticas, que modificam padrões de circulação atmosférica, quanto a transformações no uso da terra. Trata-se de uma causa multifatorial, uma somatória de fenômenos globais e ações humanas locais. O engenheiro detalha que as alterações climáticas na Bacia do Alto Paraguai (BAP) resultam em chuvas insuficientes para "recarregar" o sistema pantaneiro. O desmatamento em outras regiões, predominantemente planálticas, também afeta bastante: aproximadamente 37% da vegetação nativa do planalto foi transformada em pastagens e agricultura. Isso reduz a infiltração de água no solo, diminui a recarga de aquíferos e aumenta o assoreamento dos rios por meio do escoamento superficial.

Influência da Amazônia e do Cerrado no equilíbrio hídrico

Segundo José Roberto Rozante, especialista em meteorologia e autor do estudo publicado na Atmosphere, o desmatamento na Amazônia e no Cerrado contribui diretamente para os problemas no Pantanal. A floresta amazônica ajuda a formar chuvas ao liberar uma grande quantidade de umidade para a atmosfera — fenômeno conhecido como "rios voadores" —, e o território pantaneiro é um dos que mais dependem dessa umidade. À medida que a Amazônia é desmatada, essa “fábrica de chuva” enfraquece.

Rozante detalha: "Pequenas mudanças na quantidade de chuva ou na vazão dos rios já provocam grandes alterações na área que fica alagada. Diferente da Amazônia, que produz parte da própria umidade, o Pantanal depende da água que vem dos planaltos ao redor, especialmente do Cerrado." Ele acrescenta que o bioma está em uma zona de transição climática, onde pequenas mudanças nos sistemas de chuva podem reduzir a precipitação e ampliar os efeitos da seca. "Se o aumento da temperatura e a redução das chuvas continuarem, o Pantanal pode aos poucos perder suas características de área alagável", finaliza.

Soluções e estratégias de mitigação para salvar o Pantanal

Para reverter ou amenizar o problema, Eduardo Reis Rosa elenca algumas estratégias principais:

  • Restauração Hidrológica: Recuperação de nascentes e matas ciliares no planalto, que são essenciais para o aporte hídrico da planície.
  • Conectividade Ecológica: Implementação de “corredores de natureza” para garantir o deslocamento da fauna, além de preservar áreas de reprodução e rotas de fuga em episódios de seca extrema ou incêndios.
  • Manejo Sustentável do Solo: Uso de técnicas agrícolas que não desgastem tanto a terra, evitando que o solo solto vá para os rios e cause assoreamento.

Rozante também pondera sobre a necessidade de redução na emissão dos gases de efeito estufa, um desafio generalizado do planeta que exige a contribuição de todos. Ele alerta para os riscos de longo prazo se nada for feito: "[Pode ocorrer] a perda gradual de áreas úmidas, substituição da vegetação típica por espécies mais adaptadas à seca, maior frequência de anos consecutivos secos. Esses fatores indicam risco de mudança estrutural do bioma, com possibilidade de o Pantanal se tornar progressivamente mais seco e menos resiliente."

Assim, apesar de o Pantanal ser considerado um dos biomas com maior rede de proteção, ele também é um dos que mais correm risco. Seu futuro dependerá da capacidade de conciliar conservação, uso responsável dos territórios e ações efetivas diante das mudanças climáticas. A preservação deste patrimônio natural é crucial não apenas para o Brasil, mas para o equilíbrio ecológico global.