Juiz de Fora: Moradores de áreas de risco permanecem desabrigados após chuvas que deixaram 65 mortos
Moradores de áreas de risco em Juiz de Fora ainda desabrigados

Juiz de Fora: Moradores de áreas de risco permanecem desabrigados após chuvas que deixaram 65 mortos

Mais de duas semanas após as intensas chuvas que resultaram em 65 mortes em Juiz de Fora, milhares de residentes continuam impossibilitados de retornar aos seus lares. De acordo com dados oficiais da Prefeitura Municipal, mais de 8,5 mil pessoas permanecem na condição de desabrigadas ou desalojadas, enquanto extensas áreas da cidade seguem evacuadas devido aos riscos persistentes de deslizamentos de terra.

As famílias afetadas, que tiveram que abandonar suas residências de forma abrupta durante os temporais, enfrentam agora uma realidade angustiante marcada pela incerteza sobre o futuro. Muitas perderam bens materiais acumulados ao longo de anos e relatam dificuldades para recuperar o pouco que restou.

Incertezas e questionamentos sobre medidas adotadas

Os moradores das regiões mais impactadas expressam dúvidas significativas sobre as medidas que serão implementadas pelas autoridades. Eles questionam publicamente decisões tomadas pela Defesa Civil e afirmam não ter recebido orientações transparentes sobre os próximos passos a serem seguidos.

O g1 realizou entrevistas com residentes dos bairros Esplanada e Paineiras, onde ruas inteiras foram completamente evacuadas devido aos altos riscos de deslizamentos. Condomínios que abrigavam aproximadamente 600 pessoas permanecem interditados no Morro do Cristo, sem previsão de liberação.

Situação crítica no Morro do Cristo

Na região do Morro do Cristo, próxima à rua Redentor no bairro Paineiras, a orientação de evacuação permanece em vigor desde o dia 24 de fevereiro, logo após as chuvas devastadoras que atingiram a cidade. Eduardo Dias Guimarães, morador de um dos condomínios interditados pela Defesa Civil, compartilhou sua experiência.

O conjunto residencial onde ele vivia possui 11 blocos de três pavimentos e 148 apartamentos, abrigando cerca de 500 pessoas. Atualmente hospedado na casa de parentes, Eduardo relata que a maioria das famílias precisou sair às pressas e ainda desconhece quando poderá retornar.

"Os dois maiores condomínios são o Redentor e o Cristo Redentor. Somente esses dois têm aproximadamente 300 apartamentos", explicou Eduardo. "Cerca de 600 pessoas vivem nesses edifícios, muitas com crianças, idosos e animais de estimação. Alguns vão de vez em quando para pegar roupas ou outros materiais, mas a maioria saiu completamente. Há pessoas sem parentes na cidade, crianças que precisam de atenção especial e idosos acamados. A situação é bem crítica".

Drama no bairro Esplanada

Diana Cristina da Silva, de 49 anos, moradora da travessa Professor Faria no bairro Esplanada há 18 anos, descreveu a situação precária de sua residência. "Nossa casa está toda incrustada. A porta já não fecha direito e está cheia de rachaduras. A casa da vizinha de baixo já apresenta rachaduras, e as outras estão sendo puxadas. Estamos todos em risco", contou emocionada.

Ela vive com o filho que possui deficiência e precisou deixar o imóvel temporariamente, encontrando abrigo na casa do namorado. Diana afirma que a Defesa Civil ainda não realizou vistorias internas em sua residência, apenas avaliações externas.

"Pedi para olharem a minha casa, mas não entraram. Estão apenas olhando de fora, e a gente fica esperando, sem saber o que será feito", explicou. "O que consegui pegar na minha casa foram documentos, algumas roupas e a televisão do meu filho. Estamos esperando, sem respostas, enquanto as casas continuam em risco".

A moradora também destacou o impacto emocional da situação: "Estou sem dormir direito, pensando nas minhas coisas e nas coisas do meu filho. É o único lar que nós temos. A situação é desesperadora".

Monitoramento permanente e falta de previsão

A Prefeitura de Juiz de Fora informou que a Defesa Civil realiza monitoramento permanente da área do Morro do Cristo. Vistorias técnicas identificaram riscos significativos de rolamento de pedras e outros materiais da encosta, que poderiam atingir imóveis localizados abaixo do morro.

Por precaução, casas em áreas potencialmente impactadas foram interditadas preventivamente. Sobre rumores de possíveis implosões de rochas, o Executivo municipal esclareceu que nenhuma decisão foi tomada nesse sentido.

A solução definitiva para a área depende da elaboração de um projeto técnico de contenção, que envolve estudos detalhados de engenharia e análises especializadas. Atualmente, além do monitoramento contínuo da encosta, o município atua em articulação com equipes do governo federal na elaboração de um plano de trabalho para captação de recursos.

Segundo a Prefeitura, não existe, neste momento, qualquer previsão para a liberação dos imóveis interditados no Morro do Cristo e no bairro Esplanada. As áreas seguem sob rigoroso monitoramento, e qualquer decisão sobre eventual retorno dos moradores dependerá de nova avaliação técnica que comprove condições de segurança adequadas.

Orientações oficiais para os moradores

A Administração Municipal orienta formalmente todos os moradores a respeitarem integralmente as interdições estabelecidas, evitarem circulação em áreas de risco identificado e não retornarem a imóveis localizados em ruas evacuadas sem autorização expressa dos órgãos responsáveis.

De acordo com comunicado oficial, informações sobre eventuais demolições, reconstruções ou novas medidas serão comunicadas diretamente aos residentes afetados e também divulgadas através dos canais oficiais do município.

Ainda no bairro Esplanada, a Prefeitura já realizou a demolição de duas casas que apresentavam riscos iminentes e avalia a possibilidade de demolição do macromuro da região, conforme laudos técnicos especializados.