Uma pesquisa realizada no Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP) trouxe à tona descobertas fascinantes sobre a jiboia arco-íris do Cerrado (Epicrates crassus). O estudo, liderado pelo pesquisador Rafael Anzai, revelou que os machos dessa espécie possuem estruturas similares a um útero, um fenômeno raro que desafia conceitos tradicionais de biologia.
O mistério dos machos com 'útero'
A parte mais intrigante da pesquisa foi a identificação de casos de intersexualidade. Em diversos machos analisados, foram encontrados vestígios de ovidutos, órgãos femininos que funcionam de forma análoga ao útero humano. Esses animais são geneticamente machos e produzem espermatozoides normalmente, mas carregam resquícios do sistema reprodutor feminino. As estruturas, no entanto, são apenas vestígios e não são funcionais para a reprodução. O fenômeno é comparado à Síndrome da Persistência dos Ductos de Müller, uma condição rara em que o corpo não reabsorve as estruturas femininas durante o desenvolvimento embrionário. Esta é a primeira vez que tal condição é descrita em detalhes para esse grupo de serpentes.
A descoberta abre novas perspectivas para discussões em sala de aula sobre a flexibilidade do sexo animal, que pode ser mais complexa do que os livros didáticos tradicionais sugerem. Ainda não se sabe se fatores ambientais ou genéticos causam essa condição, mas o achado indica que há muitos mistérios a serem desvendados na biologia das jiboias.
O valor das coleções científicas
A pesquisa não foi realizada em campo, mas sim em 'bibliotecas de animais' — as coleções científicas. Rafael Anzai analisou quase 130 jiboias preservadas em museus e institutos de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Essas coleções são fundamentais para o ensino e a pesquisa, pois permitem o estudo de animais coletados ao longo de décadas sem a necessidade de retirar novos espécimes da natureza.
A jiboia arco-íris foi escolhida por ser uma espécie comum no Cerrado e por atingir a maturidade sexual rapidamente. Enquanto a jiboia comum (Boa constrictor) precisa crescer até três metros para se reproduzir, a arco-íris já está pronta quando atinge cerca de um metro de comprimento. Isso facilitou a obtenção de exemplares adultos para o estudo do ciclo de vida da espécie.
Lutas por amor e fêmeas poderosas
A vida reprodutiva das jiboias arco-íris segue um calendário rigoroso, com pico de atividade no outono. Diferente dos humanos, essas serpentes preferem as estações mais frias e secas para se reproduzir. Durante esse período, os machos realizam combates rituais para disputar a atenção das fêmeas. O vencedor ganha o direito de acasalar, enquanto o perdedor se retira.
Curiosamente, apesar de os machos serem os brigões, as fêmeas são as 'poderosas' da relação. A pesquisa confirmou que, nessa espécie, as fêmeas são significativamente maiores que os machos. Essa diferença de tamanho tem uma explicação evolutiva: fêmeas maiores conseguem capturar presas mais robustas e, por terem mais espaço corporal, podem carregar ninhadas maiores. A natureza prioriza a sobrevivência da próxima geração através do tamanho das mães.
O estudo, exemplo do que a academia chama de 'ciência básica', expande o conhecimento sobre famílias inteiras de animais, como as jiboias e sucuris. Para o pesquisador, entender o ciclo biológico é essencial para compreender o comportamento e os hormônios dos animais, além de valorizar a biodiversidade brasileira por meio da educação científica.



