A convocação de Neymar e o debate sobre o futuro do futebol brasileiro
A expectativa em torno da decisão de Carlo Ancelotti sobre a convocação de Neymar para a Copa do Mundo de 2026 foi comparada ao suspense de uma novela. O país parou para saber se o camisa 10 estaria na lista final, em meio a um cenário de baixo entusiasmo popular: pesquisa Ipsos-Ipec aponta que apenas 16% dos brasileiros estão animados com o torneio, contra 33% em 2022. Apesar disso, o anúncio gerou grande repercussão na mídia e nas redes sociais.
No evento realizado no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, cartazes expressavam opiniões divergentes. Enquanto alguns defendiam que "Neymar com uma perna só e com um olho só é melhor que todos", outros alertavam: "Ancelotti não convoca o Neymar, ele vai queimar o teu filme". Quando o técnico italiano anunciou o nome do jogador, houve aplausos e até fogos de artifício em algumas regiões.
Falta de ídolos e a aposta no passado
A inclusão de Neymar, de 34 anos, que não atuava pela seleção desde outubro de 2023, levanta questões sobre a escassez de novos craques no futebol brasileiro. Ancelotti não havia escalado o atacante em nenhuma das dez partidas que comandou a equipe. Diferentemente das apostas em jovens como Endrick e Rayan, ambos de 19 anos, a convocação de Neymar parece mirar no passado.
O técnico justificou a escolha afirmando que Neymar tem o mesmo papel e obrigação que os outros 25 jogadores. No entanto, especula-se que pressões de patrocinadores e do pai do atleta tenham influenciado a decisão, apesar de a CBF sempre defender a autonomia do treinador.
Comparações históricas e o declínio do futebol brasileiro
O frenesi em torno da convocação foi comparado a momentos como a exclusão de Romário em 2002 e de Falcão em 1978. Contudo, as situações são distintas. Romário, aos 36 anos, vinha de uma temporada brilhante, com 40 gols em 39 jogos. Falcão era unanimidade após levar o Internacional ao título brasileiro. Neymar, por sua vez, parece ter sido impulsionado pela falta de grandes nomes, com exceção de Vinicius Jr., eleito o melhor do mundo em 2024.
Um dos fatores para a escassez de ídolos é a exportação precoce de jovens talentos. Em 2026, o Brasil liderou o ranking de países que mais exportaram jogadores, com 1.455 transações, a maioria para Portugal. Além disso, a força econômica dos clubes europeus faz com que a CBF olhe cada vez mais para fora: em 2018, 15 convocados atuavam na elite europeia; em 2022, eram 13; agora, apenas 7.
Ancelotti e a esperança do hexa
Pela primeira vez, o Brasil terá um técnico estrangeiro na Copa. Ancelotti, multicampeão da Champions League, é visto como capaz de extrair o máximo dos jogadores. No entanto, a convocação de Neymar gera contradições, já que o italiano repetiu 15 nomes da lista de 2022, mais do que as repetições entre 1958 e 1962.
O treinador afirma querer uma seleção sem estrelas, mas ao levar Neymar, garante blindagem em caso de fracasso. Resta saber se a aposta no veterano será acertada ou se revelará a falta de originalidade de um técnico que tinha tudo para ser diferente.



