Empresa de Sorocaba vence prêmio global com IA que detecta vazamentos de água por som e pressão
Empresa de Sorocaba vence prêmio com IA para vazamentos de água

Diante de um cenário mundial de crescente escassez hídrica, impulsionada pelas mudanças climáticas, a busca por soluções inovadoras para economizar e preservar a água tornou-se uma prioridade urgente. Atualmente, quase metade da população global enfrenta situações de severa falta d'água por pelo menos um mês ao ano, sem acesso suficiente para necessidades básicas. Nesse contexto, uma empresa de Sorocaba, no interior de São Paulo, desenvolveu uma tecnologia revolucionária que utiliza inteligência artificial para "escutar" vazamentos na rede de distribuição de água, prevenindo desperdícios de forma eficiente.

O "ouvido biônico" que transforma a detecção de vazamentos

A startup Stattus4, comandada pela CEO Marília Lara, criou o projeto 4Fluid, um dispositivo que funciona como um ouvido biônico para a infraestrutura hídrica. A tecnologia substitui métodos tradicionais, como o geofone eletrônico – conhecido como "estetoscópio do asfalto" – que exige mão de obra especializada e treinamento complexo. Marília explica a motivação por trás da inovação: "A gente olhou isso e falou: 'Cara, eu acho que dá pra gente desenvolver uma espécie de ouvido biônico, né? Uma inteligência artificial que ouça os ruídos da tubulação e indique se aqueles ruídos são ruídos típicos de vazamento'".

Como funciona a tecnologia 4Fluid

O primeiro protótipo do 4Fluid foi desenvolvido em 2016 e consiste em uma haste móvel que, ao ser encostada em um hidrômetro, coleta aproximadamente 10 segundos de vibração da tubulação. Esses dados sonoros são enviados para um banco com mais de oito milhões de amostras, onde a inteligência artificial classifica o som como indicativo de vazamento ou não. "Se você tem um vazamento, ela vai vibrar [redes de distribuição]. O vazamento treme a tubulação de uma forma diferente, se você não tem vazamento algum, isso gera um som característico", detalha Marília.

Além do componente auditivo, o sistema incorpora uma camada adicional de IA que analisa dados de pressão do sistema de distribuição de água, obtidos diretamente dos clientes ou de dispositivos próprios. Essas informações são processadas na nuvem, permitindo uma avaliação integrada e precisa.

Aplicação prática e benefícios econômicos

A coleta é realizada por sensores distribuídos em áreas que podem abranger desde um bairro até uma cidade inteira. O custo do serviço é considerado acessível, variando entre R$ 100 e R$ 200 por quilômetro de rede ao mês, dependendo do tamanho do projeto. Atualmente, a tecnologia já é aplicada em diversos estados brasileiros e em países como Índia, Colômbia e Portugal. No interior paulista, cidades como Votorantim, Jundiaí e Itapetininga já utilizam a solução.

As propostas são direcionadas principalmente a municípios com maiores perdas de água, baseando-se em dados do Sistema Nacional de Informações de Saneamento (SNIS). A tecnologia tem o potencial de reduzir perdas de água em até 70% e diminuir drasticamente o tempo de identificação de falhas. Um vazamento que antes poderia levar até 180 dias para ser localizado agora pode ser detectado em cerca de sete dias com o uso da IA. "A gente faz uma espécie de mapa de calor. Então, vão gerar manchas dentro daquele bairro, da onde você tem anomalias acontecendo e, portanto, onde você tem um potencial vazamento", complementa a empresária.

Reconhecimento internacional e impacto social

Em janeiro deste ano, a Stattus4 conquistou o prestigioso Prêmio Zayed de Sustentabilidade, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, na categoria água. Além do troféu, a empresa recebeu US$ 1 milhão – equivalente a mais de R$ 5 milhões – para ampliar o desenvolvimento da solução e seu impacto global. "A gente ter sido escolhido com um dos prêmios mostra todo o esforço e trabalho que a gente vem fazendo, demonstrando a importância que a tecnologia tem e o impacto que a gente pode gerar. Acho que é a parte mais legal do prêmio", celebra Marília.

O prêmio homenageia o xeique Zayed bin Sultan Al Nahyan, fundador dos Emirados Árabes Unidos, e mantém um acompanhamento contínuo dos projetos indicados para coletar dados sobre resultados obtidos ao longo do ano.

Expansão e visão de futuro

Além do 4Fluid, a empresa desenvolveu o Sistema Ada, uma solução de gestão de perdas que permite monitorar com precisão o estado da rede de distribuição de água, transformando a operação dos sistemas de abastecimento. Fundada em 2015 por Marília Lara e Antonio Oliveira, a Stattus4 começou no Parque Tecnológico de Sorocaba e hoje também possui uma filial no Jardim Santa Rosália. Segundo a CEO, a tecnologia já beneficiou mais de quatro milhões de pessoas.

"Quando você trabalha com gestão de perdas, você está tirando menos água desse manancial. Você contribui para uma maior resiliência hídrica de todo o ecossistema, esse é o nosso grande objetivo: salvar a água do mundo", enfatiza Marília, destacando o compromisso da empresa com a sustentabilidade e a preservação dos recursos hídricos em um planeta cada vez mais afetado pela crise climática.