Um levantamento realizado pelo Instituto Democracia em Xeque revelou uma repercussão massiva nas redes sociais em torno da suposta prisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos. O episódio, que ocorreu entre os dias 3 e 6 de janeiro de 2026, gerou uma avalanche de mais de 50 milhões de publicações em plataformas como X, TikTok, Instagram e YouTube em escala global.
Brasil como epicentro do debate na América Latina
O estudo classifica o Brasil como o polo central desse debate na região latino-americana. No período analisado, foram registradas 3,6 milhões de publicações feitas por brasileiros, que, por sua vez, foram compartilhadas por outras 34 milhões de pessoas, amplificando exponencialmente o alcance da discussão.
O ápice do engajamento aconteceu no dia 3 de janeiro, coincidindo com uma entrevista coletiva do ex-presidente americano Donald Trump, na qual ele confirmou a operação que teria levado à captura do líder venezuelano.
Dominância conservadora e narrativas vitoriosas
A análise do Instituto Democracia em Xeque mostrou que o debate online foi dominado por internautas identificados como conservadores. Os conteúdos produzidos por esse grupo alcançaram impressionantes 21 milhões de pessoas, um número quatro vezes maior que o alcance obtido por publicações de viés progressista.
As narrativas conservadoras se concentraram principalmente na celebração do que chamaram de "fim da ditadura na Venezuela" e na exaltação da figura de Donald Trump. O ex-presidente dos EUA foi frequentemente associado a termos como "protagonista" e "salvador" nas publicações analisadas.
Marcas da desinformação e uso de Inteligência Artificial
Um dos aspectos mais preocupantes destacados pela pesquisa foi o ambiente de intensa desinformação e manipulação. O debate digital foi profundamente contaminado por conteúdos falsos ou alterados.
O instituto detectou uma amplia circulação de fotos falsas que supostamente mostravam a prisão de Maduro. Além disso, vídeos manipulados ganharam grande tração, incluindo um que sugeria, de forma inverídica, uma ação armada do Movimento Sem-Teto (MST) em Nova York com o objetivo de libertar o presidente venezuelano.
O uso de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) para criar ou modificar conteúdos foi apontado como uma característica marcante dessa onda de publicações, dificultando a distinção entre fato e ficção para os usuários.
Polarização e leitura estratégica por trás da ação
Letícia Capone, diretora do Instituto Democracia em Xeque, explicou que os dados indicam que a ação dos EUA na Venezuela gerou um debate global intenso e uma forte polarização dentro do Brasil, cenário agravado pela desinformação.
"Apesar da retórica pró-democracia apresentada por aliados de Trump, prevalece a leitura de uma afirmação unilateral de poder, com centralidade nos interesses estratégicos e no petróleo, sem compromissos claros com processos eleitorais na Venezuela", afirmou Capone.
O episódio, portanto, transcendeu o fato em si para se tornar um microcosmo dos conflitos políticos digitais contemporâneos, onde narrativas se espalham rapidamente, a desinformação é uma ferramenta comum e as plateias online se dividem de forma acentuada, especialmente em países com cenários políticos polarizados, como o Brasil.