Especialistas alertam: Brasil deve focar em IA, não apenas em incentivos para datacenters
Brasil deve focar em IA, não só em incentivos para datacenters

Brasil na encruzilhada digital: atrair datacenters é necessário, mas insuficiente

O programa Redata, criado para incentivar a instalação de datacenters no território brasileiro, tem revelado um debate muito mais amplo e crucial sobre o papel que o país pretende desempenhar na economia digital global. Enquanto existe consenso sobre a importância estratégica de atrair essa infraestrutura de dados, especialistas alertam que a discussão precisa urgentemente superar a simples pressa por incentivos tributários e mergulhar em questões fundamentais de soberania tecnológica.

O bonde da inteligência artificial não pode ser perdido

Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad, argumenta que a política de atração de datacenters faz sentido dentro do contexto da transformação tecnológica mundial. Ele destaca que a inteligência artificial, motor central dessa transformação, é intensiva em capacidade computacional e demanda centros de processamento robustos e modernos. "O Brasil não pode perder o bonde da inteligência artificial", afirma Igliori com convicção.

No entanto, o economista faz uma ponderação crucial: políticas públicas dessa magnitude e impacto precisam obrigatoriamente estar fundamentadas em estudos de impacto detalhados e bem estruturados. Esses estudos devem considerar cuidadosamente os efeitos fiscais, as implicações concorrenciais e as consequências de longo prazo para a economia nacional.

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Incentivo fiscal: solução eficiente ou atalho perigoso?

Igliori levanta uma dúvida central que ecoa no debate econômico: o incentivo fiscal representa realmente o instrumento mais eficiente dentro da já complexa e intrincada equação tributária brasileira? Em um país que discute incessantemente a simplificação de impostos e a responsabilidade fiscal, qualquer proposta de renúncia de receita precisa ser extremamente bem calibrada e justificada.

Para o economista, o debate não deve ser conduzido por ideologias, mas sim por critérios técnicos rigorosos — algo que exige números concretos, cenários projetados com precisão e comparações internacionais sólidas. A superficialidade nas discussões pode levar a decisões equivocadas com custos elevados para o futuro do país.

Vantagem competitiva e o risco do foco estreito

Alex Agostini, economista da Austin Rating, amplia significativamente o horizonte da conversa. Ele reconhece que o Brasil possui uma vantagem competitiva relevante e muitas vezes subestimada: a matriz de energia majoritariamente limpa, um ativo valioso e cada vez mais cobiçado por empresas globais profundamente preocupadas com questões de sustentabilidade ambiental. Esse fator, por si só, já coloca o país no radar de investidores internacionais do setor de tecnologia.

Contudo, Agostini faz uma crítica direta e contundente ao foco quase exclusivo em isenções fiscais que tem dominado o debate. Para ele, atrair apenas a "casca" da operação — o prédio físico e os servidores — é claramente insuficiente e representa uma visão de curto prazo. O país deveria mirar objetivos mais ambiciosos, como o desenvolvimento de hardware avançado, software inovador e soluções tecnológicas próprias, áreas que concentram maior valor agregado e capacidade real de geração de riqueza sustentável a longo prazo. "Não pode ser só a lógica simplista de que isenção gera emprego e ponto", sustenta o economista com firmeza.

Segurança jurídica: pilar fundamental esquecido

Outro ponto sensível e crucial levantado por Agostini é a questão do ambiente regulatório e da segurança jurídica. A presença massiva de datacenters de grande porte exige, como condição básica, uma segurança jurídica sólida e previsível, especialmente na aplicação consistente da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Estamos falando aqui do armazenamento de dados globais, informações estratégicas de empresas e governos, e, em última análise, da soberania digital nacional.

A discussão, portanto, não se restringe apenas a aspectos econômicos e fiscais — é também profundamente institucional e requer um arcabouço legal robusto que inspire confiança nos investidores internacionais.

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Hospedar ou liderar a revolução digital?

No final das contas, o programa Redata acaba funcionando como um catalisador que traz à tona uma pergunta maior e mais estratégica: o Brasil deseja apenas hospedar passivamente a revolução digital em seu território ou pretende liderar ativamente parte significativa desse processo transformador?

Os especialistas consultados parecem convergir em um ponto fundamental — a oportunidade é real, tangível e deve ser aproveitada, mas isso exige planejamento meticuloso, ambição visionária e muito menos superficialidade nos debates públicos. O caminho para o futuro digital do país está sendo traçado agora, e as escolhas feitas hoje definirão se seremos meros espectadores ou protagonistas nessa nova era.