No fascinante mundo da arqueologia, uma descoberta bombástica foi anunciada na semana passada. Cientistas da Universidade de Barcelona revelaram um papiro contendo um trecho da Ilíada, poema épico do grego Homero (928 a.C.-898 a.C.), encontrado em um local inusitado: o interior do abdômen de uma múmia do Egito Antigo. Essa façanha é sem precedentes, pois em sítios históricos como a antiga cidade greco-romana de Oxirrinco, ao sul do Cairo, onde os pesquisadores localizaram a relíquia em 2025, já haviam sido identificados corpos mumificados com papiros de textos mágicos e rituais, mas nunca uma obra literária.
O renascimento do interesse pelas múmias
“Desde o final do século XIX, um número enorme de papiros foi descoberto em Oxirrinco, mas a novidade é encontrar um texto assim num contexto funerário”, comemorou Ignasi-Xavier Adiego, cientista líder da missão. Achados como esse renovam um fenômeno longevo e inesgotável: o interesse da humanidade pelas múmias egípcias. Esse culto remonta à Idade Média, quando europeus chegavam a usá-las com supostos fins medicinais. Ganhou tração pop com a campanha de Napoleão no Egito, na virada do século XIX, e conquistou de vez corações e mentes graças a descobertas como a tumba do faraó Tutancâmon, em 1922. Esse evento adicionou uma dose de mitologia ao tema: a morte do financiador da escavação, Lord Carnarvon, por uma infecção causada pela picada de um mosquito, foi vista como uma maldição dos deuses do Nilo.
Tecnologia moderna revela segredos antigos
Agora, a atração pelas múmias renasce sob um olhar do século XXI. As lendárias caçadas às tumbas de faraós deram lugar à investigação sobre hábitos cotidianos, culturais e problemas de saúde dos humanos embalsamados. No caso da múmia que carrega o papiro de Homero, a descoberta reforça a visão dos historiadores sobre a influência greco-romana no período tardio do Egito Antigo. Como era praxe, o corpo mumificado teve os órgãos extraídos do abdômen, e em sua cavidade foi inserido o fragmento literário. A nova era da pesquisa, ancorada em tecnologias cada vez mais precisas e menos destrutivas, passa pelo uso extraordinário das avançadas técnicas da medicina diagnóstica atual.
Somente nos primeiros meses de 2026, dois estudos provaram as possibilidades notáveis dessas ferramentas. Na Hungria, o Museu de História Médica de Budapeste submeteu seis múmias egípcias de seu acervo desde 1965 a uma bateria de exames de imagem. Descobriu que esses “pacientes” ancestrais sofriam de males bem comuns da era moderna, como artrite, anemia e câncer.
Mais relevante ainda é uma investigação conduzida nos Estados Unidos, reminiscente do extinto seriado CSI. Em fevereiro passado, o Centro de Inovação em Visualização Médica da Universidade do Sul da Califórnia (USC) examinou as múmias de dois sacerdotes egípcios com scanners capazes de captar nuances no interior do corpo humano em altíssima resolução. Nes-Min e Nes-Hor, as eminências em questão, morreram há mais de 2.000 anos, mas a pesquisa — tema de uma exposição no Centro de Ciência da Califórnia — iluminou sua ficha de saúde como se fossem humanos de hoje.
Descobertas impressionantes: cirurgias e doenças
A múmia Nes-Hor chegou aos 60 anos com dores: as imagens detectaram uma fratura na pélvis debilitante para seu deslocamento. Já Nes-Min tinha cerca de 40 anos quando morreu, e o exame revelou vários artefatos sobre seu corpo, como um escaravelho no topo da cabeça. A tomografia detectou uma vértebra lombar colapsada na parte inferior da coluna, comum entre humanos contemporâneos devido à má postura. O mais impressionante: há indícios inéditos de intervenções cirúrgicas, com incisões e marcas de ferramentas ao redor da coluna. “Os egípcios eram conhecidos por fazer furos no crânio (trepanação), por razões como aliviar a pressão cerebral. Mas nunca ninguém descreveu evidência de intervenção espinhal tão antiga”, disse a chefe da pesquisa, Summer Decker.
A médica ressalta um aspecto crucial dos novos estudos: com a ajuda da tecnologia, não é mais preciso danificar as múmias, “desembrulhando-as”, como se fazia no passado, para examiná-las por dentro. “Escaneamos para entender e contar a história dessas pessoas com respeito. Eram humanos que viveram e caminharam pela Terra e que tinham lesões e condições semelhantes às das populações modernas”, afirma ela. Como lembra a paquistanesa Salima Ikram, uma das maiores egiptologistas da atualidade: “Cada múmia tem uma história a contar, se soubermos como escutá-la”. A ciência ganhou armas potentes para fazê-las contar seus segredos.



