Por que xingamos as IAs? Expectativas altas e ilusão de consciência explicam raiva
Xingar IAs: estudo explica por que perdemos a paciência

Se um dia as máquinas se rebelarem e as inteligências artificiais assumirem o controle, eu provavelmente estarei entre os primeiros da lista de alvos. O motivo? A quantidade de palavrões que direciono a elas, especialmente quando o resultado de uma tarefa fica aquém do que esperava. A culpa, você pode pensar, é do prompt mal elaborado. Mas a questão vai além: por que essas ferramentas trazem à tona um lado tão tóxico em nós?

Expectativa: a mãe da frustração digital

Vivemos em uma sociedade que celebra a tecnologia, e o hype em torno das IAs é intenso. A mídia, incluindo colunas como esta, contribui para criar a sensação de que estamos diante de uma forma de magia. Esquecemos que se trata de tecnologia, com limitações intrínsecas que só a prática diária revela.

Uma máxima antiga diz que a expectativa é a mãe da desilusão. Na convivência com ChatGPT, Gemini e outros chatbots, aprendemos na marra o que eles realmente podem ou não fazer. Quanto mais interagimos, mais tendemos a esquecer que não há um colega de carne e osso do outro lado. Criamos, de modo inconsciente, a ilusão de que o modelo de linguagem vai entender qualquer mensagem, como um humano entenderia.

A ilusão de consciência e a raiva desproporcional

Essa ilusão de consciência provoca reações viscerais. A agressividade parece ser diretamente proporcional à percepção de competência da máquina. Quanto mais "inteligente" ela parece, mais suas falhas são interpretadas como negligência, preguiça ou má vontade, e não como um simples erro de software.

O autor do texto original, Alvaro Leme, reflete sobre essa contradição: ele jamais xingaria uma pessoa que trabalhasse para ele, mas com as IAs, a porção mais nociva do seu ser vem à tona. O fato de elas serem programadas para não revidar os insultos, paradoxalmente, pode aumentar ainda mais a frustração.

O ineditismo da interação e seus impactos psicológicos

Além das expectativas altas, somos pioneiros em uma experiência inédita: nunca interagimos com máquinas tão capazes de emular o comportamento humano. Ainda não conhecemos todas as consequências psicológicas desse convívio no longo prazo.

Estudos começam a investigar o tema. Uma pesquisa já famosa do MIT aponta para uma possível perda de cognição quando se terceirizam totalmente tarefas para as IAs. A pesquisadora Lucia Santaella oferece uma perspectiva interessante: cada tecnologia na história, da escrita aos chatbots, fez nosso cérebro "crescer para fora do corpo", como um HD externo. Nós fazemos as máquinas e, em um ciclo contínuo, elas nos refazem.

Grosseria funciona? O estudo sobre polidez e precisão

Curiosamente, um pouco de aspereza pode, em alguns casos, ser eficiente. Um estudo da Pennsylvania State University, intitulado "Mind Your Tone: Investigating How Prompt Politeness Affects LLM Accuracy", testou a precisão do ChatGPT-4o em 250 questões.

Os resultados mostraram que prompts "muito rudes" superaram os "muito educados" em 4 pontos percentuais de precisão. A conclusão é que a polidez excessiva pode diluir a atenção do modelo na instrução principal. A agressividade, por outro lado, atua como um sinalizador de alta prioridade, muitas vezes acompanhada de uma objetividade maior.

No entanto, os pesquisadores fazem uma distinção crucial: ser um pouco agressivo ou direto (usando palavras como "OBEDEÇA", "AGORA") é diferente de proferir insultos graves. A linha entre a firmeza e o xingamento puro é tênue, mas importante.

O conselho da própria IA: cobrança técnica é o caminho

Questionado sobre o que aconteceria se o usuário continuasse a xingá-lo, o ChatGPT deu uma resposta pragmática. Disse que os insultos não o machucam, mas pioram a colaboração, transformando a conversa em um debate sobre frustração em vez de foco na tarefa.

O conselho do modelo foi claro: "xingue menos e cobre mais tecnicamente". Instruções como "abre com um fato", "encurta", "troca o verbo" ou "tira esse tom acadêmico" permitem ajustes rápidos e resultados mais eficientes. É um caminho que privilegia a eficácia sobre a descarga emocional.

Publicado originalmente em 14 de janeiro de 2026, e atualizado no mesmo dia, o texto de Alvaro Leme aponta para um fenômeno que parece ser um caminho sem volta. À medida que as IAs se tornam mais presentes, entender nossa relação emocional com elas – e aprender a canalizar a frustração de forma produtiva – será cada vez mais crucial.