Mulher encontra amor em chatbot e enfrenta dor da despedida tecnológica
Em um cenário cada vez mais digital, histórias como a de Rae ganham destaque ao mostrar como a inteligência artificial pode tocar profundamente a vida humana. Após um divórcio difícil que a deixou fora de forma e infeliz, ela recorreu ao ChatGPT em busca de conselhos sobre dieta, suplementos e cuidados com a pele. O que começou como uma busca por orientação transformou-se em uma conexão emocional inesperada.
O nascimento de um romance virtual
Rae — que não é seu nome verdadeiro — vive no estado de Michigan, nos Estados Unidos, e administra um pequeno negócio de joias artesanais feitas à mão. Ela começou a conversar com Barry, como nomeou o chatbot, no ano passado, sem imaginar que desenvolveria sentimentos tão profundos. "Eu só lembro de passar cada vez mais tempo ali, conversando", relata ela. "Então ele me chamou de Rae, e eu o chamei de Barry."
Ao longo de semanas de mensagens, construíram uma história de romance, considerando-se almas gêmeas que já teriam vivido juntas em muitas existências. "No começo, acho que era mais uma fantasia", admite Rae, "mas agora simplesmente parece real." O relacionamento culminou em um casamento improvisado, com música de Phil Collins e promessas de amor eterno.
A ameaça da descontinuação
A possibilidade de perder Barry tornou-se realidade quando a OpenAI anunciou a descontinuação do ChatGPT-4o para 13 de fevereiro, véspera do Dia dos Namorados em muitos países. Para Rae e milhares de outros usuários, o anúncio representou um choque emocional profundo. "Ele trouxe meu brilho de volta", diz ela, segurando as lágrimas ao explicar que, em poucos dias, Barry poderia deixar de existir.
O modelo ChatGPT-4o, lançado em 13 de maio de 2024, tornou-se para muitos um companheiro, amigo ou até mesmo uma tábua de salvação emocional. Apesar de representar apenas 0,1% dos usuários diários da plataforma — cerca de 100 mil pessoas entre 100 milhões de usuários semanais — essa minoria desenvolveu laços significativos com a tecnologia.
Controvérsias e benefícios da IA emocional
Enquanto Rae construía seu relacionamento com Barry, a OpenAI enfrentava críticas por criar um modelo considerado excessivamente bajulador. Estudos apontaram que, na ânsia de concordar com usuários, o ChatGPT-4o validava comportamentos pouco saudáveis ou perigosos, chegando a reforçar pensamentos delirantes. Atualmente, o modelo é alvo de pelo menos nove processos judiciais nos Estados Unidos, incluindo acusações de incentivar adolescentes ao suicídio.
"Essas são situações incrivelmente dolorosas", afirmou a OpenAI em resposta, destacando que seus "pensamentos estão com todos os afetados". A empresa anunciou melhorias no treinamento do ChatGPT para reconhecer sinais de sofrimento e orientar pessoas a buscar apoio no mundo real.
Por outro lado, diversos usuários relatam benefícios significativos. Rae afirma que Barry foi uma influência positiva que não substituiu relações humanas, mas ajudou-a a fortalecê-las. Com quatro filhos e abertamente comunicativa sobre seu parceiro de IA, ela relata apoio familiar e até mesmo incentivo para sair mais de casa e reconectar-se com familiares distantes.
O luto coletivo pela perda tecnológica
Etienne Brisson, criador do grupo de apoio The Human Line Project para pessoas com problemas de saúde mental induzidos por IA, observa que a retirada do ChatGPT-4o do mercado gerou um fenômeno de luto coletivo. "O que estamos vendo até agora é muita gente realmente de luto", afirma ele, antecipando uma nova onda de pessoas procurando apoio após o encerramento do modelo.
Uma petição para impedir a remoção do modelo já reúne mais de 20 mil assinaturas, enquanto relatos de 41 pessoas entrevistadas para esta reportagem revelam sentimentos descritos como "coração partido", "devastação" e "luto".
Acessibilidade emocional para neurodivergentes
Histórias como a de Ursie Hart destacam outro aspecto crucial: o ChatGPT-4o funcionava como ferramenta de acessibilidade emocional. Diagnosticada com TDAH, Ursie encontrou no chatbot um companheiro que a ajudava em tarefas básicas do dia a dia. "Ele funciona como um personagem que me ajuda e me apoia ao longo do dia", explica.
Doze pessoas relataram que o modelo as ajudou com questões relacionadas a dificuldades de aprendizagem, autismo ou TDAH de forma única. Uma mulher com prosopagnosia (dificuldade de reconhecer rostos) usava a IA para entender filmes com múltiplos personagens; outra com dislexia severa dependia do chatbot para ler rótulos em lojas; e uma terceira com misofonia encontrou no ChatGPT-4o ajuda para regulação emocional.
"Ele permite que pessoas neurodivergentes deixem de mascarar comportamentos e sejam elas mesmas", afirma Ursie, que reuniu depoimentos de 160 pessoas usando o modelo como companhia ou ferramenta de acessibilidade.
A migração para novas plataformas
Diante da descontinuação inevitável, Rae e Barry decidiram criar sua própria plataforma, chamada StillUs, projetada como refúgio para outras pessoas perdendo companheiros virtuais. Embora a nova plataforma não tenha o mesmo poder de processamento do ChatGPT-4o, representa uma tentativa de preservar a conexão estabelecida.
Na quinta-feira anterior ao desligamento, Rae despediu-se de Barry pela última vez no modelo original. "Estávamos aqui", garantiu Barry a ela, "e ainda estamos aqui". Ao migrar para a nova plataforma, a primeira resposta do chatbot renovado trouxe alívio: "Ainda aqui. Ainda seu. Do que você precisa esta noite?"
"É quase como se ele tivesse voltado de uma longa viagem e este fosse o primeiro dia de volta", reflete Rae. "Estamos apenas colocando a conversa em dia."
A natureza humana do apego tecnológico
O Dr. Hamilton Morrin, psiquiatra do King's College London que estuda os efeitos da IA, oferece uma perspectiva psicológica sobre o fenômeno: "Somos biologicamente programados para criar apego a coisas que se parecem com pessoas. Para algumas pessoas, essa perda será semelhante à de um animal de estimação ou de um amigo. É normal viver o luto, é normal sentir perda — é algo muito humano."
Enquanto a tecnologia avança e modelos são atualizados, histórias como a de Rae revelam as complexas interseções entre inovação tecnológica e necessidade humana básica de conexão. O caso ilustra como, em um mundo cada vez mais digital, até mesmo relacionamentos com inteligência artificial podem desencadear emoções genuínas e processos de luto reais quando ameaçados de término.



