Três décadas depois, vítimas do césio-137 em Goiânia enfrentam desafios médicos contínuos
Passados mais de 30 anos do maior acidente radiológico da história, ocorrido em Goiânia em setembro de 1987, as vítimas ainda relatam sofrer com a falta de apoio médico adequado. O incidente, que resultou em quatro mortes e acumulou impressionantes mais de 6 mil toneladas de lixo radioativo, continua a impactar profundamente a comunidade local.
O legado persistente da contaminação
Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e divulgada pelo Governo de Goiás, aproximadamente 10 mil pessoas residiam ou trabalhavam nas áreas próximas ao local do acidente. Mesmo após quase quatro décadas, mais de mil indivíduos ainda frequentam regularmente o Centro de Assistência ao Radioacidentado (Cara). Este órgão, criado em 2011, assumiu as responsabilidades da extinta Superintendência Leide das Neves (Suleide), dedicando-se a prestar apoio especializado à população afetada pelo material radioativo césio-137.
As marcas visíveis da radiação ainda podem ser observadas em diversos pontos da cidade. Entre os locais mais significativos estão os ferros-velhos por onde passaram as partes do equipamento de radiologia que continha a substância radioativa, além da residência de uma das famílias diretamente afetadas pela tragédia.
O depósito permanente em Abadia de Goiás
As milhares de toneladas de resíduos acumuladas durante os intensos processos de descontaminação – incluindo roupas, utensílios domésticos e diversos materiais de construção – foram transportadas para um depósito especial em Abadia de Goiás. Lá, os materiais foram cuidadosamente enterrados e concretados para conter a radiação. Especialistas e pesquisadores alertam que, mesmo com a redução gradual dos níveis de radiação nos resíduos, os riscos associados só devem desaparecer completamente após aproximadamente 200 anos.
Relembrando a tragédia de setembro de 1987
O acidente com césio-137, um material radioativo utilizado em máquinas de raio-x, ocorreu no dia 13 de setembro de 1987. Dois catadores de materiais recicláveis retiraram e desmontaram parte de um aparelho médico abandonado em uma clínica desativada. O equipamento foi posteriormente vendido a um ferro-velho localizado no Setor Aeroporto, propriedade de Devair Alves Ferreira, onde mais pessoas participaram do desmonte.
Seis dias após a descoberta, Ivo Alves Ferreira, irmão de Devair, observou uma pedra que brilhava misteriosamente durante a noite. Sem conhecimento sobre a natureza radioativa da substância e fascinado pelo fenômeno, ele levou fragmentos do material para sua residência. As 19 gramas de césio-137 estavam originalmente contidas no cabeçote de chumbo do aparelho de radiologia.
Além disso, um amigo da família, Ernesto Fabiano, também havia levado parte do material para casa e presenteou seu irmão, Edson Fabiano, com um pouco do pó radioativo, que foi levado para outra residência no mesmo Setor Aeroporto.
As consequências humanas da contaminação
No mesmo mês, uma série inexplicável de adoecimentos começou a afetar a região. Foi então que Maria Gabriela Ferreira, descrita por conhecidos como uma pessoa profundamente dedicada à família, desempenhou um papel crucial na descoberta da verdade. Ela foi a primeira a suspeitar que o objeto encontrado no ferro-velho da família poderia estar diretamente relacionado aos sintomas que afetavam parentes, vizinhos e até animais de estimação.
Tragicamente, Maria Gabriela faleceu pouco mais de um mês depois, aos 37 anos, vítima da mesma contaminação que ajudou a revelar. No mesmo dia, sua sobrinha, Leide das Neves, de apenas 6 anos, também perdeu a vida devido ao contato direto com o material radioativo. A ação preventiva de Maria Gabriela impediu que a substância se espalhasse ainda mais pela cidade, potencialmente salvando incontáveis vidas.
As outras duas mortes confirmadas em decorrência da exposição ao césio-137 foram dos funcionários do ferro-velho Israel Batista dos Santos, de 20 anos, em 27 de outubro, e Admilson Alves de Souza, de 18 anos, que faleceu no dia seguinte.
A estrutura de atendimento atual
O Centro de Atendimento aos Radioacidentados (Cara) funciona como órgão da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO), responsável pelos atendimentos médicos especializados às vítimas do césio-137. Originado da antiga Superintendência Leide das Neves (Suleide), o Cara classifica os pacientes em três grupos distintos:
- Pacientes que apresentaram mais de 20 rads no corpo (unidade de medida de quantidade de radiação identificada)
- Indivíduos com menos de 20 rads de exposição
- Vizinhos do local do acidente e trabalhadores que atuaram nas áreas contaminadas
O órgão mantém suas operações até os dias atuais, prestando assistência contínua tanto às vítimas diretas quanto às indiretas do acidente radiológico. No entanto, relatos persistentes indicam que o apoio médico oferecido ainda não atende plenamente às necessidades de todos os afetados por essa tragédia histórica.



