Caso suspeito de superfungo Candida auris mantém paciente em isolamento no Rio Grande do Norte
Um paciente de 58 anos, de nacionalidade espanhola e residente na praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, encontra-se em um leito de isolamento no Hospital da Polícia Militar, em Natal. As autoridades de saúde do estado aguardam o resultado de exames laboratoriais que poderão confirmar a presença do superfungo Candida auris, um microrganismo considerado ultrarresistente a medicamentos e que exige protocolos rigorosos de controle hospitalar.
Histórico da internação e suspeita inicial
Segundo informações da prefeitura de Tibau do Sul, cidade onde fica o distrito de Pipa, o paciente possui uma doença cardíaca crônica. Ele deu entrada na Unidade Mista de Saúde de Tibau do Sul no dia 1º de janeiro, inicialmente para tratamento de problemas cardíacos. Permaneceu internado por 15 dias na unidade e foi transferido no dia 16 de janeiro para o Hospital da Polícia Militar, em Natal.
Após apresentar um quadro de febre, exames laboratoriais foram realizados e, no dia 20 de janeiro, o Laboratório Central do Rio Grande do Norte (Lacen) apontou a possível presença do Candida auris. Em nota, a Prefeitura de Tibau do Sul informou que, durante o período de internação do paciente na Unidade Mista, não houve identificação da presença do fungo, nem detecção do microrganismo no ambiente hospitalar ou em outros pacientes.
Medidas de prevenção e monitoramento
De forma preventiva, todos os profissionais de saúde que tiveram contato com o paciente estão sendo monitorados, seguindo protocolos técnicos e sanitários, até que novas orientações sejam emitidas pelos órgãos competentes de vigilância em saúde. A nota também destaca que, até o momento, não é possível determinar a origem da contaminação pelo fungo, nem estabelecer o local ou as circunstâncias em que o paciente teve contato com o microrganismo.
No Hospital da Polícia Militar, apenas equipes de saúde mantêm contato direto com o paciente, já que ele não tem parentes morando no estado. Todos os profissionais seguem protocolos de segurança e utilizam equipamentos de proteção individual. A Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) informou que realiza o rastreamento do caso para identificar onde e quando o paciente pode ter sido contaminado.
Colonização versus infecção e evolução clínica
Segundo o médico infectologista Eduardo Teodoro, que atua no Hospital da PM, o paciente não apresenta infecção causada pelo fungo, mas uma colonização. “A infecção acontece quando o micro-organismo está causando doença no paciente. Já a colonização ocorre quando o fungo está presente na pele ou em algum local do corpo, mas sem provocar doença”, explicou.
O médico afirmou ainda que o paciente apresenta evolução clínica favorável. “Ele está em curva de melhora. Vai permanecer internado por mais alguns dias para tratamento clínico, antibióticos e realização de exames laboratoriais e de imagem”, disse. As amostras foram enviadas para um laboratório de referência em São Paulo, conforme protocolo do Ministério da Saúde, mas ainda não há previsão para a divulgação dos resultados.
O que é o superfungo Candida auris e sua ameaça à saúde pública
A Candida auris é considerada um fungo emergente e raro no Brasil, com registros em poucos estados, como Bahia, Pernambuco e Minas Gerais. Caso a suspeita seja confirmada, este será o primeiro registro no Rio Grande do Norte. A infecção pode ser fatal, especialmente em pacientes com comorbidades.
O secretário de Saúde do RN, Alexandre Motta, explicou a preocupação em relação a esse fungo: “A preocupação em relação a esse fungo é que ele tem uma capacidade biológica de produzir uma coisa chamada biofilme, que é como se fosse uma película que faz com que os antifúngicos não consigam penetrar nele. E ele fica naquele ambiente onde ele está contaminante. Até os antifúngicos excepcionais têm pouquíssimo efeito”. Por outro lado, ele afirmou que o superfungo tem baixa capacidade de infecção.
O Candida auris foi identificado pela primeira vez em 2009, no ouvido de uma paciente internada no Japão. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi notificada sobre o possível primeiro caso positivo no Brasil em dezembro de 2020, em um paciente internado na Bahia. Desde então, o país registrou diversos surtos.
Segundo alerta emitido pela Anvisa, o Candida auris representa uma “séria ameaça à saúde pública” porque:
- Apresenta resistência a vários medicamentos antifúngicos comumente utilizados, com algumas cepas resistentes a todas as três principais classes de fármacos antifúngicos;
- Pode causar infecção em corrente sanguínea e outras infecções invasivas, podendo ser fatal, principalmente em pacientes com comorbidades;
- Pode permanecer viável por longos períodos no ambiente (semanas ou meses) e apresenta resistência a diversos desinfetantes;
- É propenso a causar surtos devido à dificuldade de identificação por métodos laboratoriais rotineiros e de eliminação do ambiente contaminado.
De acordo com um alerta publicado em 2023 pela Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, pesquisas sugerem que os fatores de risco para Candida auris incluem internação em unidades de terapia intensiva, hospitalização prolongada, uso de cateter venoso central e outros dispositivos invasivos, tratamento prévio com antifúngicos, cirurgia recente, imunossupressão e diabetes.