Retatrutida: substância não aprovada é vendida ilegalmente como caneta emagrecedora
A retatrutida, uma substância farmacêutica que ainda se encontra em fase de testes clínicos, tem sido amplamente divulgada nas redes sociais como uma alternativa promissora para o emagrecimento. Diversos usuários relatam o uso do produto, enquanto anúncios de fornecedores afirmam importar a fórmula, apresentada em formato de caneta com aparência semelhante à de medicamentos já disponíveis no mercado, como o Ozempic e o Wegovy.
Proibição e alertas das agências reguladoras
Apesar da oferta crescente, a substância não foi aprovada por nenhuma agência reguladora no mundo. No início deste ano, a Anvisa determinou a apreensão e proibiu a comercialização de produtos com o princípio ativo no Brasil. O Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos afirmou que a retatrutida não pode ser utilizada em manipulação farmacêutica e não possui autorização para uso. Já a European Medicines Agency emitiu um alerta sobre a venda ilegal de canetas emagrecedoras, destacando o risco de falhas no tratamento e efeitos graves à saúde.
Potencial e riscos da substância
Desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly, a retatrutida atua como agonista dos receptores GLP-1, GIP e glucagon, com potencial considerado mais potente que medicamentos como a semaglutida, comercializada como Ozempic e Wegovy, e a tirzepatida, vendida como Mounjaro. Resultados preliminares publicados no The New England Journal of Medicine indicaram que, na fase dois dos estudos, participantes perderam em média mais de 24% do peso corporal, índice superior ao observado com a tirzepatida.
No entanto, especialistas alertam que o medicamento ainda precisa concluir a fase três de pesquisas e passar por etapas finais que incluem:
- Comparação com tratamentos existentes
- Avaliação ampliada de segurança
- Aprovação formal das agências reguladoras
Críticas de especialistas e riscos à saúde
Para o endocrinologista Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, comercializar uma substância ainda em testes é uma "atrocidade científica". Ele destaca que, além dos riscos próprios do princípio ativo, há perigo de impurezas em produtos fabricados fora de ambientes regulados. "Essas impurezas podem desencadear reações autoimunes ou até câncer", afirma.
Paulo Miranda, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, reforça que medicamentos injetáveis precisam ser produzidos em condições estéreis e com controle rigoroso de qualidade. Segundo ele, produtos adquiridos no mercado clandestino não oferecem garantias sobre origem, armazenamento ou pureza, aumentando o risco de infecções e reações alérgicas.
Crime e violação de patentes
A venda de medicamento patenteado e sem aprovação também configura crime. A advogada Lays Serpa, especialista em propriedade intelectual, afirma que a prática viola direitos de patente e coloca consumidores em risco. Ela ressalta que a reprodução de embalagens e formatos semelhantes aos originais pode induzir o público ao erro.
Em nota, a Lilly do Brasil informou que a retatrutida está disponível apenas para participantes de ensaios clínicos autorizados. "Qualquer pessoa que alegue vender retatrutida para uso humano está violando a lei", declarou a empresa, acrescentando que produtos sem aprovação regulatória podem representar riscos significativos à saúde.
Anvisa investiga mortes ligadas a canetas emagrecedoras
A Anvisa está atualmente apurando 65 mortes ligadas a canetas para emagrecer no Brasil. A agência acompanha as notificações para o controle de segurança de qualquer medicamento, não apenas as dos agonistas de GLP-1, como são classificadas as canetas emagrecedoras, indicadas para o tratamento de diabetes, obesidade e excesso de gordura no fígado. Esta investigação reforça a gravidade dos riscos associados ao uso de produtos não regulamentados e a urgência de ações de fiscalização.



