Pós-graduação em Psicanálise: Quem Pode e Deve Fazer?
Pós em Psicanálise: Quem Pode e Deve Fazer?

Quando nos perguntamos sobre quem pode ou não fazer algo, estamos nos localizando no âmbito do direito, da legitimidade, mas também, da correção sobre a decisão. Para que possamos avaliar bem uma escolha tão importante como essa, que pode vir a definir rumos significativos em nossos processos de identificação com o trabalho, com nossa forma de ser e estar no mundo a partir da construção de um lugar social, faz-se igualmente necessário que dobremos a aposta: além da pergunta sobre “se podemos ou não fazer”, que alcemos a questão a uma dimensão ética de “se devemos ou não fazer” e “quando fazer ou não”. Note-se que o dever aqui não tem o sentido cívico ou mandatório, como uma obrigação, mas abre a discussão a respeito daquilo que nos move. E se há alguma coisa que a psicanálise nos ensina ao longo de nossos percursos é que decisões tomadas por motivos suficientemente bem analisados podem fazer com que não venhamos a recair no risco de trairmo-nos.

Quem Pode Fazer Pós-Graduação em Psicanálise?

Do ponto de vista da legitimidade, o campo psicanalítico há muito tempo abandonou a premissa de que o exercício da psicanálise deveria ser restrito aos profissionais graduados em medicina ou psicologia. Considerando que a formação psicanalítica não se dá em cursos de estrutura universitária, mas sim, em escolas de psicanálise a partir da formalização do tripé (estudo teórico, atendimento supervisionado e análise pessoal), não faz sentido exigir que as graduações de origem sejam especificamente nessas áreas. E, para cada caminho, encontramos obstáculos diferentes. Por outro lado, também há um consenso de campo de que há uma exigência mínima de alguma formação superior para que o ingresso numa formação seja aceito. Entende-se com isso que a psicanálise não pode ser um saber unívoco e totalitário. Se partimos da psicologia, dialogamos desde o princípio com diferentes abordagens e visões da psicopatologia. Se iniciamos na medicina, com diferentes modos de tratamento e visões sobre o funcionamento orgânico e suas interações com o psíquico. Se viemos da filosofia, debatemos com os mais diversos modos de compreensão da subjetividade e suas interações sociais. São caminhos, não os únicos possíveis, da mesma forma como são bem-vindos aqueles que dialogam com as artes, com as matemáticas, com outras formas de promoção do cuidado e assim por diante. Logo, a resposta à primeira pergunta é muito simples: pode fazer uma pós-graduação em psicanálise todos que possuírem alguma graduação. A pergunta mais complexa é a que segue após essa: mas será que eu devo fazer uma pós-graduação?

Pós-Graduação: Stricto Sensu vs. Lato Sensu

Pois bem, aqui temos dois caminhos a avaliar sua extensão. Quando falamos em pós-graduações no Brasil nos referimos igualmente a dois processos muito dessemelhantes: um deles é as pós stricto sensu, diretamente relacionado à pesquisa, que nos leva à realização de mestrados, doutorados e pós-doutorados; e outro, as pós lato sensu que nos levam a especializações, residências e cursos de aperfeiçoamento e atualização. Importante notar que o primeiro caminho nos leva às universidades, mas também, para as universidades. Digo isso porque em nosso país esse campo de pós-graduação serve à formação de pesquisadores e o campo de trabalho que absorve esse contingente é, justamente, o trabalho universitário. Nesse sentido, trata-se de um caminho árduo, mas muito interessante, mas destinado a quem é movido pelo desejo de pesquisar e lecionar sobre um determinado tema. Já as pós-graduações lato sensu (e aqui devo abrir um parêntese para dar o meu testemunho sobre a qualidade e rigor das pós-graduações e cursos do Instituto ESPE, no qual tenho o prazer de lecionar) apresentam-se como uma opção muito rica para quem busca um aprimoramento de suas práticas ou uma aproximação com um novo campo de atuação.

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Quando Fazer e Por Quê?

Portanto, a resposta à pergunta se devo ou não fazer uma pós lato sensu ou quando ela é a melhor opção deveria ser acrescida da questão “mas o que me move a isso?” Se a resposta for iniciar a parte tão significativa da formação quanto aos estudos teóricos, ou ter uma aproximação com o campo a ponto de poder tomar uma decisão efetivamente decidida sobre a nossa entrada ou não, ou ainda, o incremento de teoria e técnica para qualificar uma prática que já possuímos, então, nesses casos, eu sugiro que o quando seja apenas uma questão de tempo. E, se tudo der certo, quem sabe possamos nos encontrar em alguma aula de pós-graduação no Instituto ESPE.