Obesidade infantil: especialista defende medidas drásticas contra ultraprocessados
O mundo poderá registrar 507 milhões de crianças em idade escolar com sobrepeso ou obesidade até 2040, conforme projeções do Atlas Mundial da Obesidade divulgado no Dia Mundial da Obesidade. No Brasil, os números já são alarmantes: 33% das crianças e adolescentes apresentam excesso de peso, enquanto 13% sofrem de obesidade, segundo dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan).
Cenário preocupante e doenças precoces
Para especialistas, essa realidade já impacta profundamente a saúde infantil, com o surgimento de doenças tradicionalmente associadas à vida adulta. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado no International Journal of Obesity, identificou sinais precoces de inflamação e disfunção endotelial em crianças com sobrepeso e obesidade.
"Esses achados reforçam evidências de que o excesso de peso aumenta o risco de aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral ainda na infância", explica a endocrinologista Maria Edna de Melo, chefe da Liga de Obesidade Infantil do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Mudança no padrão alimentar e desigualdades
Segundo a médica, a obesidade é uma doença multifatorial, mas a alimentação tem papel central. Nas últimas décadas, houve mudanças significativas no sistema alimentar, com maior oferta e acesso a produtos ultraprocessados.
"Nós comemos mais calorias, com mais facilidade. E esse excesso de energia vai se acumulando na forma de gordura", afirma Melo, destacando que o crescimento da obesidade é mais intenso entre populações de baixa renda.
A especialista questiona: "Como exigir meio quilo por dia de frutas, verduras e legumes — como recomenda a Organização Mundial da Saúde — se grande parte da população vive com um salário-mínimo?" Ela ressalta que a inflação das frutas já foi mais de 40% maior que a dos refrigerantes.
Impacto na saúde física e mental
O impacto na saúde física pode começar cedo. Crianças com obesidade podem apresentar dificuldades de locomoção, dores articulares e problemas ortopédicos. Além disso, já surgem alterações metabólicas importantes como hipertensão, triglicérides elevados, colesterol HDL baixo e até diabetes.
"São doenças que tradicionalmente apareciam depois dos 40 anos e que agora vemos antes da adolescência", alerta Melo, citando estudos que indicam que uma criança com obesidade grave aos 5 anos pode ter expectativa de vida de apenas 43 anos.
Para crianças e adolescentes obesos, o impacto emocional costuma ser ainda mais profundo. A obesidade é uma doença visível e frequentemente estigmatizada. "Há estudos mostrando que a qualidade de vida de crianças com obesidade pode ser semelhante ou pior do que a de crianças com câncer", revela a médica.
Propostas para combater a epidemia
Para enfrentar essa epidemia, a endocrinologista defende medidas estruturais:
- Taxação de bebidas açucaradas: Especialistas estimam que a taxação deveria chegar a 30% para ter impacto significativo no consumo.
- Regulamentação de cantinas escolares: Enquanto escolas que recebem verba federal devem utilizar os recursos apenas com alimentos saudáveis, nas escolas privadas ainda não há regulamentação nacional.
- Restrição de publicidade infantil: Discussões sobre publicidade infantil de alimentos ultraprocessados se arrastam há anos sem que uma lei tenha sido promulgada.
Orientações para famílias
Na prática, o que as famílias podem fazer? Para a endocrinologista, o primeiro passo é o planejamento:
- Organizar a semana no fim de semana
- Preparar alimentos básicos como arroz e feijão e congelar porções
- Evitar manter ultraprocessados em casa
- Observar a lista de ingredientes nos rótulos
"Se tem algo que você não reconhece, pense duas vezes", orienta Melo sobre a presença de adoçantes em produtos infantis.
Desafios adicionais: sedentarismo e telas
Outro fator que agrava o cenário é o sedentarismo. A atividade física tem papel social, ajuda no desenvolvimento e na convivência, mas atualmente muitas crianças passam horas no celular. Questões como violência urbana também limitam brincadeiras ao ar livre, especialmente em áreas mais vulneráveis.
Para a médica, enfrentar a obesidade infantil exige uma combinação de estratégias: melhorar o ambiente alimentar, fortalecer políticas públicas, apoiar famílias e reduzir o estigma. "Transferir a responsabilidade para a criança é inaceitável. É uma tarefa da sociedade", defende a especialista.



