Crise da Diálise no Brasil: Pacientes Renais Esperam em Leitos de UTI por Falta de Vagas
A grave crise da diálise no Brasil perdura, transformando leitos de Unidade de Terapia Intensiva em espaços de espera para pacientes renais. A falta de vagas em unidades ambulatoriais obriga milhares de brasileiros a percorrer longas distâncias ou permanecer internados indefinidamente, enquanto o Sistema Único de Saúde paga sessões de hemodiálise 96% abaixo da inflação.
Jornadas Exaustivas e Esperas Intermináveis
Às duas da manhã, três vezes por semana, Ednólia, de 71 anos, já está de pé em Baião, no interior do Pará. A aposentada atravessa a cidade para esperar o transporte que a leva para Belém, onde realiza hemodiálise — uma viagem de quase cinco horas que pode se estender por seis. Após três horas e meia ligada à máquina, repete o percurso de volta para casa.
"É uma viagem cansativa. Quebrei o fêmur depois de uma queda e sinto dores; ficar muito tempo sentada no carro acaba piorando", relata Ednólia, que descobriu a necessidade de diálise em 2024 quando seus rins estavam quase parados. Sem condições de morar na capital, depende do transporte oferecido pela prefeitura, ainda que parte do trajeto saia do próprio bolso.
A 2.997 quilômetros de distância, Adenice Queiroz, de 60 anos, vive realidade semelhante na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Diagnosticada com doença renal crônica aos 40 anos, após sua segunda gravidez, ela atualmente está internada em hospital público aguardando vaga em clínica próxima de casa, em Belford Roxo.
"Só posso sair quando tiver vaga, senão perco o leito do hospital também", conta Adenice, que depende do apoio da família enquanto seu benefício previdenciário está suspenso por questões cadastrais.
Números Alarmantes e Desigualdades Regionais
Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Nefrologia realizado entre maio e junho de 2025, ao menos 1.095 pacientes de 13 regiões do país estavam internados em hospitais públicos aguardando vaga em unidades de diálise ambulatorial. O caso mais antigo envolve um paciente do Pará com sorologia positiva para hepatite B, que já espera há mais de um ano por tratamento adequado.
Pedro Túlio Rocha, nefrologista e diretor de políticas associativas na SBN, alerta: "Todos os pacientes renais, quando precisam permanecer em hospitais aguardando vaga, ficam mais expostos a infecções. Além disso, é uma situação que compromete a qualidade de vida e gera custos maiores para o sistema de saúde."
Os dados do Censo Brasileiro de Diálise de 2024 revelam crescimento constante no número de pessoas em tratamento dialítico. Em uma década, a taxa passou de pouco mais de 550 para 812 pacientes por milhão de habitantes. Quase 80% dos pacientes em diálise são atendidos pelo SUS, percentual que ultrapassa 90% na região Norte.
Um estudo nacional publicado em 2024 por pesquisadores da Unesp dimensiona a desigualdade territorial: quase metade dos pacientes percorre mais de 40 quilômetros para fazer hemodiálise três vezes por semana. Enquanto no Sudeste a distância média é de 27,6 km, no Norte salta para 84,3 km, com casos extremos de deslocamento chegando a 353 km.
Financiamento Defasado e Pressão sobre o Sistema
Por trás da crise, há um problema financeiro estrutural: o valor que o SUS paga por cada sessão de hemodiálise está severamente defasado. Em janeiro de 1999, a sessão custava R$ 93,58 na tabela do SUS. Se corrigido pela inflação oficial, hoje deveria estar em R$ 472,71. No entanto, o SUS paga apenas R$ 240,97 — uma defasagem estimada em 96,17%.
José Moura Neto, presidente da SBN, revela que a entidade apresentou ao Ministério da Saúde, ao longo de 2025, documentos detalhando o problema. "Estamos falando de cerca de 170 mil brasileiros que dependem da diálise para viver. Sem um financiamento adequado, existe risco real de desassistência", alerta o médico.
Um médico que prefere não se identificar denuncia a chamada "crise da diálise" desde 2008 e avalia que o problema se agravou após a pandemia de covid-19. "Muitos hospitais ficaram voltados exclusivamente para covid, e grande parte das doenças crônicas foi deixada em segundo plano. Agora estamos colhendo essa 'bomba'", afirma.
Respostas do Governo e Perspectivas Futuras
O Ministério da Saúde informou que deve anunciar em breve a atualização da Tabela SUS e novos investimentos para reforçar o transporte sanitário de pacientes. Em 2023, houve reajuste de 10,3% no valor das sessões de hemodiálise, além do repasse adicional de R$ 165 milhões para apoiar cerca de 500 prestadores de serviços.
O órgão ressaltou que a organização da oferta de hemodiálise pelo SUS é responsabilidade dos gestores estaduais e municipais, que devem contratar serviços de nefrologia e regular o acesso conforme a demanda local. O governo informou ainda que encomendou à Fundação Getulio Vargas estudo para reavaliar os custos da diálise.
Enquanto isso, pacientes como Ednólia e Adenice continuam suas jornadas exaustivas, representando o rosto humano de uma crise que afeta milhares de brasileiros e desafia a sustentabilidade do sistema público de saúde.