Polêmica sobre terceirização do Hospital Regional do Alto Acre divide opiniões no interior do Acre
Um plano de terceirização da gestão do Hospital Regional do Alto Acre, localizado em Brasiléia, no interior do estado, está gerando intensa polêmica entre o governo estadual e os servidores da unidade de saúde. Embora a Secretaria Estadual de Saúde do Acre (Sesacre) afirme que o modelo não representa uma privatização dos serviços, os funcionários públicos se mostram contrários à mudança administrativa.
Governo defende novo modelo como solução para falhas estruturais
A Sesacre esclareceu à imprensa que a proposta não configura privatização, mas sim uma reestruturação administrativa através do terceiro setor. O secretário estadual de saúde, Pedro Pascoal, explicou que a intenção é corrigir falhas estruturais, modernizar e reorganizar os atendimentos, seguindo o exemplo do que já ocorre no Hospital Regional do Juruá, em Cruzeiro do Sul.
"A privatização não existe, estaremos apenas estruturando, através do terceiro setor, a administração do hospital", afirmou Pascoal. Ainda não há previsão concreta para a implementação da mudança, e um edital deve ser lançado para definir os termos da nova administração.
Servidores criticam medida e relatam condições precárias
Do outro lado, os servidores do hospital expressam forte oposição à terceirização. A técnica de enfermagem Albertina Oliveira destacou que o problema não seria resolvido com mudanças administrativas, mas sim com investimentos adequados.
"Vimos que a terceirização não é um caminho ou solução para o hospital. Temos dificuldade de serviço porque o próprio governo não investe", declarou Oliveira. Ela ainda revelou situações alarmantes: os funcionários precisam fazer cotas entre si para pagar a internet do hospital – cerca de R$ 8 mil por ano – e para consertar ar-condicionados ou comprar ventiladores, já que o sistema de refrigeração não funciona em todos os ambientes.
"Então, vemos que não é terceirizar que vai resolver, falta gestão e planejamento", criticou a técnica.
Falta de especialistas e relatos de pacientes
A Sesacre aponta a escassez de profissionais de saúde como um dos principais motivos para a mudança. Conforme o secretário, concursos públicos e processos seletivos foram realizados, mas as vagas não foram preenchidas, comprometendo serviços essenciais como leitos de UTI, centro cirúrgico 24 horas e especialidades médicas.
Os relatos de moradores da região confirmam as falhas no atendimento. Muitos precisam se deslocar até a capital, Rio Branco, em busca de suporte médico. A merendeira Maria Raimunda Pereira compartilhou uma experiência trágica: sua mãe precisava de uma cirurgia que não pôde ser realizada em Brasiléia.
"Era pra ter aqui esse atendimento cirúrgico, que facilitaria demais o caso da minha mãe, que faleceu pois teve que se deslocar até Rio Branco. Mas, como demorou demais, ela faleceu no trajeto. Se tivesse feito a cirurgia aqui, talvez estivesse com a gente", lamentou.
Metas contratuais e objetivo final
Segundo a secretaria, a entidade que assumir a nova gestão terá que cumprir metas estabelecidas em contrato, podendo sofrer penalidades em caso de descumprimento. O objetivo declarado é atrair especialistas para residir no Alto Acre, atendendo não apenas Brasiléia, mas também municípios como Xapuri, Epitaciolândia e Assis Brasil.
"O Sistema Único de Saúde (SUS) é gratuito e universal. A intenção é trazer o especialista para residir no Alto Acre, de forma a reorganizar e melhorar o atendimento hospitalar na região", finalizou o secretário Pedro Pascoal.
A polêmica continua enquanto a população aguarda os próximos passos do governo estadual e a publicação do edital que definirá o futuro da gestão do Hospital Regional do Alto Acre.