Surto de Coqueluche na Terra Yanomami: Três Crianças Mortas e Lideranças Cobram Ação Urgente
A Terra Indígena Yanomami, localizada nos estados do Amazonas e Roraima, enfrenta um grave surto de coqueluche desde o início deste ano, com três mortes confirmadas oficialmente pelo Ministério da Saúde. No entanto, a situação é ainda mais alarmante, pois associações indígenas contestam esses dados e afirmam que o número real de óbitos pode ser maior, chegando a cinco crianças.
Casos Confirmados e Internações
Conforme boletim epidemiológico do Hospital da Criança Santo Antônio, em Boa Vista, ao qual o g1 teve acesso, até esta sexta-feira (20) havia oito casos confirmados da doença. Atualmente, a unidade hospitalar registra 13 crianças internadas por suspeita de coqueluche, sendo a maioria bebês menores de um ano, faixa etária considerada mais vulnerável às complicações da infecção.
A maioria dos casos confirmados foi registrada na região de Surucucu, no município de Alto Alegre, especificamente nas comunidades de Aracik, Sétimo Bis, Watho-u, Xiotho-u e Yarima. A informação sobre o surto foi divulgada pelas associações Yanomami Urihi e Hutukara, que têm monitorado de perto a situação.
Visita das Lideranças e Preocupações
Nesta quinta-feira (19), os líderes indígenas Dário Kopenawa e Waihiri Hekurari estiveram no Hospital da Criança Santo Antônio em busca de informações sobre a real situação. Durante a visita, eles tiveram acesso ao boletim epidemiológico atualizado e percorreram os setores de internação indígena.
"Estamos perdendo crianças recém-nascidas por uma doença que poderia ser evitada. É muito triste e revoltante ver nossos bebês internados e morrendo. Precisamos de vacinação urgente em toda a Terra Yanomami", afirmou Dário Kopenawa, destacando a gravidade do cenário.
Waihiri Hekurari, que é da região de Surucucu, defendeu que o Ministério da Saúde seja transparente em relação aos dados de coqueluche. "Se não acompanharmos essa situação, muitas crianças podem morrer e os números podem ser maquiados novamente. Por isso, seguimos monitorando o cenário, já que, mais de uma vez, vidas foram perdidas por falhas e pela falta de planejamento vacinal no território Yanomami", alertou.
O que é Coqueluche e sua Prevenção
A coqueluche, também conhecida como "tosse comprida", é uma infecção respiratória altamente contagiosa causada pela bactéria Bordetella pertussis. Os sintomas incluem crises de tosse seca e intensa que podem levar ao vômito, sendo mais grave em bebês menores de seis meses, onde pode causar complicações sérias e, por vezes, a morte. A prevenção é feita principalmente pela vacinação, um ponto crucial destacado pelas lideranças indígenas.
Ações do Ministério da Saúde e Secretarias
Diante da situação no território, a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde, informou que tem feito busca ativa de possíveis casos em comunidades Yanomami desde a segunda-feira (16), cinco dias após o alerta emitido pela Secretaria Municipal de Saúde de Boa Vista em 13 de fevereiro. Segundo o Ministério, desde então, "foram realizados 229 atendimentos, com mais de 70 indígenas vacinados".
O Ministério da Saúde também enviou uma equipe de forma emergencial ao território, incluindo um médico, técnico de enfermagem, enfermeiro e socorrista, que devem atuar na unidade de Surucucu. Atualmente, há um bebê Yanomami de três meses internado no Hospital da Criança Santo Antonio, em Boa Vista, segundo a prefeitura da capital, responsável pela unidade. Não há casos em UTI, mas há outras duas crianças não indígenas com coqueluche no hospital.
Contexto Histórico e Emergência Sanitária
A Terra Indígena Yanomami, com quase 10 milhões de hectares e mais de 31 mil indígenas distribuídos em 370 comunidades, está em emergência de saúde desde janeiro de 2023. O governo federal, após a posse do presidente Lula (PT), iniciou ações para atender os indígenas, como o envio de profissionais de saúde e de cestas básicas, além do reforço das forças de segurança na região para frear o garimpo ilegal.
O presidente da Urihi, Waihiri Hekurari Yanomami, afirmou que as mortes por coqueluche comprovam que a emergência sanitária Yanomami continua. "A avaliação é de que, sem acompanhamento, mais crianças podem morrer. As vítimas são, em sua maioria, bebês com poucos meses de vida. A emergência sanitária na região continua", reforçou Hekurari.
Em 2024, não houve crianças internadas com coqueluche no Hospital da Criança Santo Antônio. Em 2025, foram registrados os oito casos confirmados de internação por coqueluche, destacando a urgência de medidas preventivas e de vigilância epidemiológica reforçada.



