Uma pesquisa realizada com quase sete mil brasileiros com mais de 60 anos trouxe um alerta importante sobre a saúde mental na terceira idade. O estudo revela que existe uma lacuna significativa entre o número de idosos que relatam sentir sintomas depressivos e aqueles que recebem um diagnóstico formal da doença.
Lacuna entre sentir e diagnosticar
Os dados, analisados por pesquisadores da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) e da University College London, mostram que 15,9% dos idosos entrevistados relataram sentimentos de tristeza, solidão ou falta de prazer nas atividades do dia a dia. No entanto, dentro desse grupo, apenas 37,3% tinham um diagnóstico médico de depressão. Isso significa que aproximadamente 4 em cada 10 idosos com sintomas depressivos foram diagnosticados, deixando uma grande parcela sem identificação formal do problema.
A análise utilizou informações da segunda onda do Elsi-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros), conduzida entre 2019 e 2021 pela UFMG e pela Fiocruz-MG. Foram entrevistadas 6.872 pessoas com mais de 60 anos.
Jefferson Traebert, professor da Unisul e um dos autores do estudo, explica que a pesquisa não estabelece uma relação de causa e efeito, mas destaca um sinal de alerta. "A contribuição do estudo está em apontar que a autopercepção pode indicar uma predisposição ou fatores de risco nessa faixa etária, para que os médicos da atenção primária e as políticas públicas possam ficar atentos", afirma.
Fatores de risco e uma contradição
Entre os idosos que foram diagnosticados com depressão, a pesquisa identificou alguns fatores de risco claros. As mulheres apresentam um risco 2,23 vezes maior de desenvolver a doença em comparação com os homens. O sedentarismo também se mostrou um fator associado ao problema.
Um dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi em relação à escolaridade. O estudo concluiu que idosos com até oito anos de estudo apresentaram maior prevalência de depressão em comparação com os não escolarizados. Este resultado parece contraditório em relação a outras pesquisas, que geralmente associam níveis mais baixos de educação a mais sintomas depressivos.
Os pesquisadores levantam a hipótese de que isso pode ser um reflexo do descompasso entre as expectativas criadas por uma escolaridade intermediária e as oportunidades reais vivenciadas por esses indivíduos ao longo da vida.
Traebert recomenda atenção redobrada a esses grupos. "É preciso um olhar mais atento para as mulheres e para quem tem menor instrução formal", destaca. "A prática de atividade física é um fator protetivo importante para o sofrimento psíquico e para a depressão".
Atenção primária é a chave
O estudo também alerta para uma tendência perigosa: a de naturalizar a tristeza e a solidão no envelhecimento. Traebert enfatiza que o sofrimento psíquico não é natural e pode impactar severamente a qualidade de vida. Ele aponta a atenção primária em saúde, porta de entrada do SUS, como o espaço fundamental para que os idosos possam falar sobre esses sentimentos, indo além das queixas físicas comuns.
Os pesquisadores recomendam a combinação do autorrelato do paciente com avaliações objetivas dos profissionais para o manejo adequado da depressão em idosos. Dados de 2017, citados no estudo, mostram que metade dos idosos com depressão não foram diagnosticados na atenção primária. Isso acontece porque sintomas como fadiga, perda de libido, problemas de memória e irritabilidade podem ser confundidos com aspectos normais do envelhecimento.
"Às vezes o idoso não reconhece o próprio sofrimento psíquico, mas a equipe de saúde tem que reconhecer. Precisamos pesquisar e entender esses sentimentos como possíveis sinais de sofrimento, não só físico, mas emocional", conclui Traebert.
Outra surpresa da pesquisa foi que a situação conjugal não mostrou significância estatística como fator protetivo, algo que costuma ser apontado em outros estudos sobre depressão.