Em um mundo pós-pandemia, uma sensação comum tem unido executivos, professores e pessoas de diferentes áreas: a de que a vida antiga não funciona mais, mas o caminho a seguir é incerto. A psicóloga e professora de Harvard, Luana Marques, PhD, lança luz sobre esse "desencontro" interno e ensina como transformar o medo e a ansiedade em força motriz para a ação.
O descompasso entre o externo e o interno
Mudanças externas profundas – no trabalho, na tecnologia, nas relações e nas expectativas – se acumularam em ritmo acelerado. No entanto, internamente, muitas pessoas enfrentam confusão, exaustão e a sensação de carregar um peso excessivo. O cérebro humano, moldado para buscar segurança e previsibilidade, resiste a essa nova realidade, agarrando-se ao conhecido mesmo quando ele já não serve mais.
É por esse mecanismo de autoproteção que indivíduos permanecem em empregos que adoecem, relacionamentos esvaziados ou rotinas sem sentido. A escolha não é por fraqueza, mas por uma preferência neurológica pelo porto seguro, ainda que inadequado, em detrimento do mar desconhecido.
O conceito psicológico de "transição"
Esse momento crítico, em que a vida atual já não se encaixa, mas o futuro ainda assusta, é denominado pela psicologia como transição. Em sua coluna publicada em 9 de janeiro de 2026, Luana Marques esclarece: "Transição não é o que muda por fora. É o que precisa se reorganizar por dentro quando a mudança externa já aconteceu".
É exatamente nesse processo de reorganização interna que a maioria das pessoas trava. No consultório, a psicóloga observa estratégias comuns de fuga: trabalhar em excesso, dormir pouco, consumir substâncias ou, no extremo oposto, anestesiar-se e congelar diante da realidade. Esses comportamentos oferecem alívio imediato, mas cobram um preço elevado a longo prazo.
Um exemplo real: o custo de evitar o fim
Marques compartilha a história próxima de sua irmã, que por quase dois anos foi profundamente infeliz em um trabalho onde havia crescido profissionalmente. Diante de conflitos e desgaste, a reação foi se esforçar ainda mais, tentando "dar conta".
Internamente, a exaustão se manifestou como ansiedade, insônia e até um atendimento hospitalar de emergência. Todos os sinais apontavam para a necessidade de um fim, mas a transição foi evitada. A demissão, dias antes do Natal, veio como um desfecho doloroso, mas previsível. "Eu sabia que ia acontecer. Mesmo assim, dói", disse a irmã.
Luana Marques enfatiza que a dor é parte inerente do processo, pois toda transição exige uma perda real. Algo precisa findar para que o novo possa surgir. Reconhecer essa dor e, ao mesmo tempo, a necessidade do fim, é um passo crucial.
Iniciando o ano no lugar da transição
Muitos começam o novo ciclo conscientes de que a vida atual não cabe mais, mas ainda tentando torná-la suportável. O desafio central, segundo a especialista, não está em promover mudanças externas, mas em atravessar a transição interna necessária para o desenvolvimento pessoal.
A psicóloga adianta que, em suas próximas colunas, abordará as reações comuns ao desconforto da transição e como elas podem perpetuar a estagnação. Ela provoca uma reflexão inicial: "O que, na sua vida, já não funciona, mas você ainda tenta salvar?".
Para quem se identifica com a questão, Luana Marques convida para continuar a conversa em seu perfil no Instagram @luanamarques.phd, onde discute ciência psicológica aplicável, e em seu livro "Viver com Ousadia", um aprofundamento sobre como navegar por transições sem perder a essência de si mesmo.