O conceito grego de Phármakon, que significa tanto veneno quanto remédio, nunca esteve tão atual. Em um mundo dominado por redes sociais viciantes e, por vezes, tóxicas, o médico e criador de conteúdo Rafael Gratta, de 32 anos, usa essa mesma lógica para oferecer um antídoto contra o estresse, a tensão e a fadiga mental. Com mais de 5 milhões de seguidores no Instagram, TikTok e YouTube, ele distribui mensagens terapêuticas em meio a um mar de ruídos e estímulos potencialmente prejudiciais.
O antídoto digital contra a ansiedade
Suas postagens abordam a erosão da atenção, gatilhos para dependência e descargas de dopamina – tudo o que as plataformas digitais podem desencadear. A proposta de Gratta é ensinar “como usar o sistema contra ele mesmo”. Com base na neurociência, ele condensa essas ideias no livro Mais Foco, Menos Ansiedade, recém-publicado pela Editora Intrínseca.
No livro, o influencer, que também enfrentou dependência e ansiedade, explica como o cérebro pode se tornar refém de um ciclo vicioso alimentado pelo estresse. Ele oferece caminhos práticos para romper com esse padrão de pensar e agir, funcionando como um Phármakon para o acelerado século XXI.
Ansiedade: sintoma de um desalinhamento
Para Gratta, a ansiedade não é o problema em si, mas o sintoma mais visível de um desalinhamento entre o cérebro humano e o ambiente moderno. “Nosso sistema nervoso foi desenhado para responder a ameaças agudas e raras. Hoje, ele é exposto a estímulos crônicos e difusos: excesso de informação, comparação social constante e ausência de pausas reais”, explica.
Isso mantém estruturas cerebrais como a amígdala hiperativadas e reduz a capacidade regulatória do córtex pré-frontal. “O ser humano perdeu previsibilidade, sentido e pertencimento. O cérebro interpreta falta de controle como ameaça”, completa.
Redes sociais: veneno e remédio
Gratta reconhece que as redes sociais não são neutras – são projetadas para capturar atenção, explorando circuitos neuronais envolvidos em vício. No entanto, ele busca usar essa mesma estrutura como vetor de consciência. “Em vez de gerar mais estímulo, tento criar interrupções – momentos de reflexão que ativam o córtex pré-frontal e reduzem a reatividade automática”, afirma.
Ele defende que o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada. “Se a plataforma foi feita para capturar atenção, eu uso essa atenção para devolver autonomia.”
Quando a ansiedade se torna patológica?
Segundo Gratta, a ansiedade se torna patológica quando deixa de ser adaptativa. Ele cita três critérios principais:
- Desproporcionalidade: intensidade da resposta não corresponde ao estímulo.
- Cronicidade: estado de alerta se mantém mesmo sem ameaça real.
- Perda de funcionalidade: comprometimento da vida cotidiana.
Neurobiologicamente, há hiperatividade em circuitos de ameaça com redução da capacidade regulatória do córtex pré-frontal. O organismo entra em “modo sobrevivência crônico”, resultando em sono fragmentado, inflamação, dificuldade de concentração e alterações de humor.
Psicodélicos: nova fronteira terapêutica?
Gratta vê potencial nos psicodélicos, desde que usados com responsabilidade. Estudos mostram que eles aumentam a neuroplasticidade e reduzem a rigidez de padrões mentais, especialmente em depressão e estresse pós-traumático. No entanto, ele alerta: “Eles não são a cura, são ferramentas. Sem preparação e contexto terapêutico, o efeito pode ser superficial ou desorganizador.”
O poder das pausas
Para quem busca melhorar a saúde mental, Gratta recomenda um hábito simples: aprender a criar pausas. “O cérebro moderno vive em input constante. Sem pausa, não há processamento, apenas reação”, explica. Momentos intencionais de silêncio ou respiração reduzem a hiperatividade da amígdala e melhoram a função do córtex pré-frontal.
“Além da biologia, é na pausa que você volta a ter contato consigo mesmo. Em um mundo que te empurra para fora, parar é um ato de autonomia – e talvez uma das formas mais potentes de saúde mental hoje”, conclui.



