A República Democrática do Congo registrou, em 15 de maio de 2026, um novo surto de Ebola na província de Ituri, causado pela espécie Bundibugyo. Em 48 horas, dois casos confirmados, sem ligação aparente, foram detectados em Kampala, Uganda, em viajantes vindos do Congo. A rápida disseminação levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar o surto como emergência de saúde pública de preocupação internacional em 17 de maio. Até o dia 19 de maio, o surto acumulava 536 casos suspeitos, 105 prováveis, 34 confirmados e 134 mortes no Congo, além de dois casos confirmados e uma morte em Uganda.
O que torna este surto diferente?
A cepa responsável é o vírus Bundibugyo, identificado pela primeira vez em 2007, em Uganda. Naquele surto, houve 131 casos e 42 mortes, com letalidade de 32%. Este é o terceiro surto documentado da cepa, após os episódios em Uganda (2007-2008) e no Congo (2012). Diferentemente das cepas Ebola-Zaire, não existem vacinas ou tratamentos específicos para o Bundibugyo. As vacinas disponíveis foram desenvolvidas para o tipo Zaire e não protegem contra essa variante. O tratamento é apenas de suporte: hidratação, controle de hemorragias e alívio de sintomas.
O Ebola pode chegar ao Brasil?
Segundo Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o risco de o vírus chegar ao Brasil existe, mas é improvável no momento. A OMS reconhece que as chances de uma epidemia ou pandemia ainda são distantes. A declaração de emergência visa reforçar a vigilância global. O Ebola não se transmite pelo ar nem por gotículas respiratórias, exigindo contato íntimo com secreções, sangue ou fezes de infectados. Isso reduz o risco de disseminação em comparação com doenças como sarampo e Covid-19.
André Bon, coordenador de infectologia do Hospital Brasília, reforça que a OMS classifica como baixo o risco para países que não fazem fronteira com a região afetada. Ele cita o histórico brasileiro: em 2014, um caso suspeito foi identificado e isolado rapidamente, mas não se confirmou como Ebola. “O risco de introdução no Brasil é baixo, mas a vigilância é essencial”, afirma.
Como a doença se transmite e quais os sintomas?
A transmissão ocorre por contato direto com fluidos corporais de infectados (sangue, secreções, fezes, vômito) ou com animais mortos pela doença. Não há transmissão a distância. Os primeiros sintomas incluem febre alta súbita, dor muscular intensa e manifestações gastrointestinais. Em casos graves, surgem sinais hemorrágicos: queda de plaquetas, hipotensão, choque e sangramentos. O período de incubação varia de 2 a 21 dias, com média de 5 a 10 dias. Durante esse período, não há transmissão.
Bon orienta que pacientes vindos do Congo com febre devem ser tratados como suspeitos de Ebola. Bravo reforça que quem esteve em regiões com casos ativos ou teve contato íntimo com infectados deve se isolar ao surgirem os sintomas.
O Brasil está preparado?
O país possui um protocolo para Ebola desde surtos anteriores, coordenado pelo Ministério da Saúde, incluindo vigilância em portos e aeroportos, critérios para casos suspeitos e confirmação laboratorial. Bravo avalia que o Brasil tem experiência com doenças hemorrágicas, como dengue grave e febre amarela, o que garante conhecimento clínico para lidar com o quadro, mesmo sem casos prévios de Ebola.
O mundo está mais preparado?
Bravo acredita que sim. A experiência com a pandemia de Covid-19 tornou os sistemas de saúde mais aptos a respostas de emergência. No entanto, as mudanças climáticas alteram padrões de circulação de vírus, ampliando condições para surtos. Bon afirma que, se houver casos importados, o Brasil conseguirá montar uma resposta adequada com isolamento, leitos e equipamentos de proteção.



