Síndrome de Tourette no Bafta: incidente racial gera debate global sobre o transtorno
Tourette no Bafta: incidente racial gera debate global

Síndrome de Tourette vira centro de debate global após incidente no Bafta

Uma noite que deveria ser apenas de celebração no cinema britânico foi transformada em um debate mundial sobre inclusão e saúde mental. Durante a cerimônia do Bafta, considerado o Oscar do Reino Unido, um insulto racial histórico e socialmente inaceitável ecoou pelo auditório lotado, interrompendo o momento em que os atores americanos Michael B. Jordan e Delroy Lindo anunciavam um dos primeiros prêmios.

O incidente que mudou o rumo da premiação

Pouco antes do ocorrido, o público havia recebido um aviso incomum: em qualquer momento, um convidado poderia proferir palavras aleatórias, inclusive algumas consideradas pesadas. O responsável pela interrupção foi John Davidson, ativista escocês e referência internacional na luta por inclusão de pessoas com síndrome de Tourette.

"É um transtorno de movimento involuntário caracterizado por tiques motores e vocais", explica a psiquiatra Ana Houne. "Os tiques motores são contrações involuntárias ou semi-voluntárias, porque a pessoa consegue controlar durante um período curto de tempo".

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Entendendo a síndrome de Tourette

Esses tiques podem variar desde ações simples como piscadas e fungadas até manifestações mais complexas, incluindo gestos ou palavrões. "Os vocais envolvem contração da musculatura do aparelho fonatório, resultando em barulhos, fungadas, gritinhos, pigarro, tosse ou, quando mais complexo, coprolalia, que é falar palavrão involuntariamente", complementa a especialista.

John Davidson é uma das vozes mais conhecidas desse grupo e inspira o filme I Swear, ainda sem data de estreia no Brasil. Curiosamente, o protagonista da obra, Robert Aramayo, ganhou o prêmio de melhor ator justamente na mesma noite do episódio no Bafta.

As consequências do incidente

Após o ocorrido, Davidson deixou o auditório para evitar novos constrangimentos. A BBC, que transmitia a cerimônia com atraso, manteve o insulto no ar e, três dias depois, abriu uma investigação para entender por que o corte não foi realizado. O ativista pediu desculpas diretamente aos atores envolvidos e, em declaração à revista Variety, afirmou sentir "uma onda de vergonha", reforçando que os tiques não representam seus valores pessoais.

Vivendo com Tourette: histórias reais

A reportagem também apresenta Jess Thom, inglesa de 45 anos conhecida por repetir a palavra "biscuit" aproximadamente 16 mil vezes por dia. "Os tiques não são um reflexo do que você está pensando", afirma Jess. "Alguns tiques podem ser contextuais porque têm um forte elemento de fazer a pior coisa possível numa situação. É o que me faz gritar 'bomba' no aeroporto".

Jess recebeu o diagnóstico apenas na vida adulta e criou o projeto Tourettes Hero, que incentiva pessoas com a síndrome a não esconder os tiques. "Aprender sobre algo que sempre fez parte da minha vida e desenvolver a confiança e as palavras para explicar a outras pessoas foi transformador", revela.

A realidade brasileira

No Brasil, o Fantástico mostrou a rotina de Nicolas Matias, de 12 anos, morador de Belém. Sua mãe compartilha vídeos nas redes sociais para informar familiares e amigos sobre a condição do filho. "Quando ele teve esse diagnóstico da Tourette, eu comecei a perceber que muita gente não entendia", disse a mãe de Nicolas.

O conteúdo cresceu tanto que o menino reuniu quase um milhão de seguidores, e sua popularidade inspirou um projeto de lei que aguarda votação no Senado. A proposta visa garantir diagnóstico precoce, tratamento adequado e ações educativas sobre a síndrome.

Tratamento e adaptação

"Não existe tratamento específico para a síndrome de Tourette", explica a psiquiatra Ana Houne. "O que existem são remédios desenvolvidos para outras condições que reposicionamos e usamos para controle dos tiques".

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O cantor escocês Lewis Capaldi, diagnosticado em 2022, perdeu o controle dos movimentos durante um show no festival de Glastonbury, momento em que a plateia cantou por ele em coro. Jess Thom comenta sobre a importância da adaptação: "Tenho muito cuidado para não reforçar a mensagem de que a única maneira de se viver uma vida feliz com a síndrome de Tourette é com a diminuição dos tiques. É possível ter uma vida plena, mesmo com tiques. Tudo se resume a adaptação, compreensão e mudança de atitude".