Moradora de Governador Valadares é primeira mineira a receber tratamento experimental para lesão medular
Uma moradora de Governador Valadares, no Leste de Minas Gerais, tornou-se a primeira paciente mineira e a terceira brasileira a receber um tratamento experimental que busca estimular a regeneração de conexões nervosas em pessoas com lesão na medula espinhal. Thamires Fernandes, de 35 anos, sofreu um acidente que a deixou paraplégica em dezembro de 2025, e no mesmo mês, após entrar com ação judicial, recebeu a chamada polilaminina.
O acidente que mudou uma vida
Na madrugada de 13 de dezembro de 2025, Thamires retornava de uma apresentação como DJ na cidade de Teófilo Otoni quando o carro em que estava sofreu um grave acidente na BR-116. O veículo capotou várias vezes, resultando em ferimentos graves para ela e outro colega. Thamires permaneceu consciente durante todo o resgate, mas imediatamente percebeu que não sentia mais as pernas.
Exames realizados no hospital de Teófilo Otoni revelaram a extensão dos danos:
- Fratura de seis costelas
- Fratura da escápula esquerda
- Perfuração do pulmão
- Lesão grave na coluna entre as vértebras T10 e T11
Segundo a paciente, a vértebra T10 foi pressionada para dentro, provocando o rompimento total da medula espinhal – tipo de lesão considerado permanente na medicina. Ela passou por cirurgia poucos dias após o acidente e permaneceu internada.
A busca por uma alternativa terapêutica
Enquanto Thamires estava internada – boa parte do tempo na UTI e sem acesso ao celular – familiares começaram a buscar informações sobre possíveis tratamentos. Uma ligação inesperada do chefe do pai dela trouxe informações sobre pesquisas acadêmicas envolvendo a polilaminina.
A substância é uma rede de proteínas criada em laboratório a partir da laminina – proteína naturalmente produzida pelo corpo humano, principalmente durante o desenvolvimento fetal. Ela atua como uma espécie de "andaime" biológico que estimula o crescimento e a conexão entre neurônios.
Como a polilaminina ainda não passou por testes clínicos da Anvisa, não é um medicamento disponível ao público e permanece em fase acadêmica de investigação, o acesso só foi possível por meio de uso compassivo, previsto em lei para casos sem alternativas terapêuticas.
Logística complexa para aplicação
A família entrou com um pedido na Justiça e, após uma negativa inicial, obteve autorização. Para viabilizar a aplicação, foi necessária a transferência de Thamires de Teófilo Otoni para Governador Valadares, além do deslocamento da equipe médica do Rio de Janeiro.
Apesar das dificuldades logísticas e da proximidade do feriado de Natal, a aplicação da polilaminina foi realizada no Hospital Regional de Governador Valadares no dia 26 de dezembro de 2025, apenas 13 dias após o acidente.
Recuperação e primeiros sinais
Após a aplicação, Thamires ainda enfrentou complicações incluindo uma pneumonia hospitalar. Recebeu alta no dia 9 de janeiro e passou a morar na casa dos pais, iniciando uma rotina intensa de fisioterapia:
- Sessões cinco vezes por semana
- Exercícios realizados em casa
- Atendimento pelo Serviço de Atendimento Domiciliar da prefeitura
- Estímulos de sensibilidade e fortalecimento muscular
- Treinos de postura em equipamentos específicos
Ainda é cedo para afirmar quais efeitos o tratamento poderá trazer, mas Thamires já percebe algumas mudanças. "Às vezes alguém passa a mão e eu sinto. Passa de novo e não sinto. Como se fosse uma faísca passando por uma ponte", descreve.
Recentemente, ela também teve um espasmo na perna e conseguiu realizar um pequeno movimento durante a fisioterapia. "Foi muito pouco, mas para mim já é um ganho", comemora.
Perspectivas e esperança
Thamires reconhece que a recuperação pode levar anos – ou pode não trazer resultados significativos. "Pode demorar três anos ou mais, ou pode não voltar. A gente precisa lidar com as duas possibilidades", pondera.
Mesmo diante das incertezas, ela mantém uma perspectiva positiva: "Quero mostrar que a vida não acabou. Mesmo sobre rodas, ainda é possível viver". Para ela, a polilaminina representa justamente isso – um sinal de esperança que pode inspirar outras pessoas em situações similares.
O caso de Thamires Fernandes ilustra tanto os desafios enfrentados por pessoas com lesões medulares quanto as possibilidades emergentes da pesquisa científica brasileira, mesmo quando ainda em fases preliminares de investigação.



