Polilaminina: esperança para lesões na medula com resultados promissores e corrida judicial
Polilaminina traz esperança para lesões na medula com resultados promissores

Polilaminina: a proteína da placenta que está devolvendo movimentos a pacientes com lesões na medula

Resultados promissores estão surgindo de um tratamento experimental que utiliza a polilaminina, uma proteína extraída da placenta humana, para tratar lesões graves na medula espinhal. Pacientes que sofreram traumas incapacitantes estão relatando recuperações impressionantes, incluindo o retorno de sensibilidade e movimentos que antes eram considerados impossíveis.

Estudo clínico autorizado e corrida à Justiça

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou um estudo clínico com a polilaminina que deve começar em março deste ano, envolvendo um grupo específico de voluntários. Se os resultados forem positivos, estima-se que o medicamento possa estar disponível no mercado em até cinco anos.

Entretanto, a esperança gerada pelos primeiros resultados já desencadeou uma corrida ao Poder Judiciário. Até o momento, pelo menos 50 pacientes entraram com ações judiciais buscando acesso ao tratamento antes mesmo do início oficial do estudo clínico controlado.

Um estudo clínico acadêmico raro

Em entrevista ao podcast 'Isso é Fantástico', a bióloga e pesquisadora Tatiana Sampaio, cientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explicou a singularidade desta pesquisa. "Nós conseguimos fazer um estudo clínico pequeno, um estudo clínico piloto, mas sem patrocinador externo. Então, ele foi feito no ambiente acadêmico", destacou Sampaio.

"É um estudo clínico acadêmico, que é uma coisa muito rara, principalmente de uma droga nova, uma droga injetável, é uma coisa realmente muito rara. E a gente conseguiu fazer por conta de uma conjunção de fatores. Primeiro, uma crença de que o impossível é possível. Depois, pelo trabalho voluntário de muita gente. Então, as pessoas que participaram foram muito dedicadas e a gente não pagava praticamente nada. Quase todo mundo estava trabalhando por amor", completou a cientista.

O caso de Hawanna Cruz Ribeiro

Hawanna Cruz Ribeiro, atleta paraolímpica de Rugby em cadeira de rodas de 28 anos, é uma das pacientes tratadas com polilaminina desde 2020. Aos 19 anos, em setembro de 2017, ela sofreu um grave acidente, caindo do terceiro andar (aproximadamente 10 metros) e sofrendo traumatismo craniano com três vértebras do pescoço quebradas.

Após o tratamento com polilaminina, Hawanna relatou melhorias significativas:

  • Recuperação de sensibilidade em áreas antes insensíveis
  • Percepção de temperatura e dor, mesmo que com alguns segundos de delay
  • Melhora na sensibilidade da bexiga e intestino
  • Controle de tronco aprimorado, evitando quedas da cadeira de rodas
  • Fim das perdas de urina que ocorriam antes do tratamento
  • Ganho de movimento e musculatura nos braços e costas

"Se uma mosca pousar na minha canela, eu sinto. Se minha unha estiver encravada, eu sinto. Sinto, também, a sensação de temperatura. Demoram alguns segundos, mas sinto", descreveu a atleta sobre suas novas percepções sensoriais.

Posicionamento da Anvisa e questões em aberto

Em nota oficial, a Anvisa reforçou que "só os ensaios clínicos controlados e em todas as fases" podem comprovar "a segurança e a eficácia do produto". A agência reguladora também esclareceu que, "nos casos em que o paciente não atende aos critérios do ensaio", a pessoa pode receber o tratamento através do chamado "uso compassivo".

Entretanto, importantes questões permanecem sem resposta definitiva:

  1. Em quais casos específicos a polilaminina é realmente recomendada?
  2. Quais são os riscos e efeitos colaterais potenciais deste tratamento?
  3. O que ainda falta para que a terapia chegue efetivamente ao mercado?

Enquanto a comunidade científica aguarda os resultados do estudo clínico formal, pacientes como Hawanna continuam a testemunhar transformações que desafiam expectativas médicas anteriores, alimentando esperanças para milhares de brasileiros com lesões medulares.