Polilaminina: Hospital de Itapira (SP) é centro de coleta de placentas para pesquisa inovadora
Localizado em Itapira, cidade de 72 mil habitantes no interior de São Paulo, o Hospital Municipal se tornou o responsável pela coleta de doações de placentas, material essencial para a produção da polilaminina. Esta substância está sendo testada, com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para o tratamento de pessoas com lesão medular aguda, representando uma esperança na área da medicina regenerativa.
Como funciona a doação e produção da polilaminina
A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, uma proteína naturalmente produzida no corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário, onde desempenha um papel crucial na organização dos tecidos e no crescimento celular. Com uma média de 40 partos realizados mensalmente, a unidade hospitalar estabeleceu uma parceria, desde abril de 2025, com um laboratório privado instalado na mesma cidade, que produz a polilaminina utilizada pela pesquisadora Tatiana Sampaio em seus estudos.
Até o momento, 140 mães já colaboraram com a pesquisa, tendo suas placentas coletadas após o parto. Mônica Cobra, coordenadora de enfermagem do Hospital Municipal de Itapira, explica o processo: "A equipe de enfermagem acolhe a gestante, conversa, apresenta o projeto para ela e aí ela pensa se quer ser uma doadora ou não. Então, até hoje, das gestantes que foram aptas para essa doação, a gente nunca teve negativa". A adesão tem sido total entre as mulheres elegíveis.
Critérios rigorosos para participação na pesquisa
Para que uma gestante possa doar sua placenta, é necessário atender a uma série de critérios estabelecidos pela pesquisa:
- Ter entre 18 e 36 anos de idade;
- Não ter feito uso de tabaco, álcool ou drogas durante a gestação;
- Não apresentar doenças infectocontagiosas, como HIV ou sífilis.
Além disso, caso ocorra o mecônio durante o parto – que é a primeira evacuação do bebê – a placenta se torna inviável para uso. Mônica ressalta que, em partos comuns, a placenta é tratada como resíduo hospitalar e descartada adequadamente. As mães que não autorizam a doação ou não se enquadram nos critérios têm o material descartado da mesma maneira, garantindo que não haja desperdício desnecessário.
Armazenamento e processamento das placentas doadas
Após a coleta, as placentas doadas são imediatamente congeladas em um freezer a -20°C, garantindo sua preservação até o envio ao laboratório parceiro. Cada placenta tem, em média, entre 1,5 kg e 2 kg, e fica armazenada inicialmente no hospital. Quando há dez materiais coletados, eles são enviados ao laboratório, onde aguardam os resultados de uma bateria de testes, que ficam prontos entre 15 e 20 dias.
É importante destacar que o hospital mantém o controle total dos dados pessoais das doadoras. Para o laboratório, o material congelado é identificado apenas com um número de prontuário, preservando a privacidade das participantes. Essa medida assegura que a pesquisa seja conduzida com ética e transparência.
Itapira como polo de inovação médica
A escolha do Hospital Municipal de Itapira não foi aleatória: a cidade abriga o laboratório parceiro que produz a polilaminina a partir da laminina extraída das placentas. Rogério Almeida, diretor-presidente de pesquisa e inovação do laboratório Cristália, explica que o objetivo é avançar para um pedido de registro definitivo da substância junto à Anvisa. "A gente entra justamente nessa etapa para escalar a produção, fazer todas as provas necessárias que a Anvisa solicita, e submeter o pedido de registro definitivo à Anvisa, para que a partir do momento que o registro seja concedido, a gente possa disponibilizar o acesso à população desse medicamento", afirma.
Pesquisa em andamento e resultados preliminares
A pesquisadora Tatiana Sampaio já obteve resultados promissores com o uso da polilaminina em animais e, posteriormente, em um pequeno grupo de humanos. Isso levou à parceria com o Cristália e à aprovação da Anvisa para o início dos testes clínicos, que buscam responder se a polilaminina é realmente eficaz no tratamento de lesões medulares agudas.
"Se você me perguntar se eu acho que nós já chegamos ao estágio final de desenvolvimento da polilaminina, se estou convencida de que ela é a cura para a lesão medular? Não! Então, o que a gente precisa? A gente precisa acompanhar, ao longo do tempo, pessoas que tiveram lesões medulares reais e que não tinham esperança nenhuma de voltarem a ter movimentos. Então, é isso que precisa acontecer", destaca Tatiana, mantendo um tom de cautela otimista.
O que a polilaminina pode fazer?
A pesquisa indica que a substância pode auxiliar na regeneração em casos de lesão medular aguda, que ocorre logo após um trauma na região. Para entender melhor: a coluna vertebral forma um canal por onde passa a medula espinhal, um feixe de nervos que conecta o cérebro ao resto do corpo, transmitindo comandos e sensações. Quando há uma lesão, essa comunicação é interrompida.
A polilaminina atua aplicada no local da lesão, com o objetivo de estimular os nervos a criarem novas rotas e restabelecerem parte dos movimentos. No ano passado, a equipe de Sampaio divulgou resultados de um estudo preliminar com oito pacientes, que mostraram diferentes níveis de recuperação motora – alguns com evolução significativa, outros com progressos mais modestos.
Limitações e próximos passos da pesquisa
É crucial ressaltar que os dados divulgados até agora apresentam limitações importantes:
- O estudo preliminar envolveu apenas oito pacientes, uma amostra pequena que dificulta conclusões definitivas;
- Os resultados ainda não passaram por revisão por pares, processo fundamental para validar achados científicos;
- Não há evidências de que a polilaminina funcione em lesões medulares crônicas, apenas nas agudas;
- As recuperações observadas variaram entre os participantes, e nem todos tiveram recuperação completa.
"O que estamos vendo agora é um resultado muito estimulante, promissor. Mas, por enquanto, é só uma esperança. Não dá para saber se estamos mesmo diante de algo espetacular", conclui Tatiana Sampaio, enfatizando a necessidade de mais pesquisas e acompanhamento a longo prazo para confirmar a eficácia da polilaminina como tratamento para lesões medulares.



