Carolina Arruda retorna a Bambuí para concluir graduação enquanto enfrenta neuralgia do trigêmeo
Carolina Arruda, de 29 anos, retornou à cidade de Bambuí, no Centro-Oeste de Minas Gerais, com o objetivo de concluir sua graduação em medicina veterinária no Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG). A jovem, que convive com a neuralgia do trigêmeo – condição frequentemente descrita como causadora de uma das dores mais intensas já registradas pela medicina – busca se adaptar a uma nova rotina acadêmica enquanto mantém o tratamento das crises dolorosas que a acompanham há anos.
Adaptações necessárias para enfrentar a rotina acadêmica
Para frequentar o campus do IFMG, Carolina precisou se acomodar em um hotel próximo à instituição de ensino. Ela ficará sozinha durante esse período, enquanto seu marido e sua filha permanecem em São Lourenço, no Sul de Minas. "Se eu precisar ir ao hospital, não sei como vai ser. Vim para um hotel por questão de conforto, para poder enfrentar as crises em um ambiente adequado, com cama. O hotel acaba sendo mais confortável do que uma república ou até mesmo morar no carro, como eu havia pensado", explicou a estudante.
A nova rotina, no entanto, apresenta limitações significativas que Carolina tenta contornar para conseguir concluir o ensino superior. "No momento, estou em um quarto com ventilador, e o problema é que o vento é um dos gatilhos da minha dor. Com o calor intenso durante o dia, se fecho a janela, o ambiente fica muito abafado, e preciso ligar o ventilador, mas ele causa muita dor. Por outro lado, se abro a janela, entra muito vento e calor. Fico nesse dilema durante o dia e à noite", relatou.
A estudante está negociando com a direção do hotel uma possível troca de quarto. "Estou vendo se eles me autorizam a ir para um quarto com ar-condicionado, onde eu possa regular a temperatura e evitar tantas oscilações. Essas variações me causam muitas crises. O calor me causa dor, o frio também, e o vento igualmente. Preciso ficar em um ambiente com temperatura mais alta, mas controlada", afirmou.
Histórico de tratamentos e persistência da dor
Nos últimos anos, Carolina Arruda passou por diversos tratamentos e cirurgias na tentativa de reduzir a intensidade das crises de dor. Apesar das intervenções médicas, a jovem afirma que a dor persiste de forma significativa. "As crises ainda são frequentes, e sigo em tratamento", disse.
A estudante ganhou notoriedade nacional ao relatar crises severas de dor e, em julho de 2024, revelou o desejo de recorrer ao suicídio assistido na Suíça devido ao sofrimento e desgaste causados pela doença. Natural de São Lourenço, Carolina é casada e mãe de uma menina de 11 anos, e começou a sentir as dores aos 16 anos, durante a gravidez e a recuperação de uma dengue.
Benefícios da retomada acadêmica segundo especialista
Para o médico que acompanha Carolina, Carlos Marcelo de Barros, a retomada da rotina acadêmica pode trazer benefícios importantes ao tratamento. "A dor crônica é um fenômeno complexo que envolve, além do estímulo físico, questões sociais e emocionais. O fato de Carolina poder retomar a rotina, concluir o curso e se preparar para o trabalho ativa áreas do cérebro que também contribuem para o tratamento e podem proporcionar melhores condições de vida", destacou o especialista.
Entendendo a neuralgia do trigêmeo
A neuralgia do trigêmeo é uma doença neurológica rara que provoca dores intensas no rosto, frequentemente comparadas a choques elétricos. A condição afeta o nervo trigêmeo, responsável pela sensibilidade facial, e pode ser desencadeada por ações simples do cotidiano, como:
- Falar
- Mastigar
- Escovar os dentes
- Exposição a variações de temperatura
- Contato com vento
A doença atinge menos de 0,3% da população mundial, mas o caso de Carolina é considerado ainda mais raro por apresentar dor nos dois lados do rosto e de forma contínua. Inicialmente, seus sintomas foram confundidos com problemas odontológicos, e o atraso no diagnóstico retardou o início de um cuidado mais direcionado.
Tratamentos realizados e perspectivas futuras
Carolina já passou por diversas abordagens terapêuticas, incluindo:
- Uso de medicamentos específicos
- Sessões de radiocirurgia
- Fisioterapia especializada
- Cirurgia de descompressão do nervo trigêmeo
- Sedção profunda com objetivo de 'reiniciar' o cérebro
Os resultados desses tratamentos foram temporários, com os episódios dolorosos sempre retornando. O procedimento mais recente, realizado com sedação profunda, não trouxe a melhora esperada – segundo a própria paciente, os sintomas ficaram ainda mais intensos após a intervenção.
Atualmente, Carolina afirmou que não pretende passar por novas cirurgias ou procedimentos experimentais, mas seguirá com as terapias já implantadas, como a bomba de fármacos e os eletrodos. De acordo com o médico responsável, novas intervenções invasivas foram descartadas, e a prioridade agora é preservar conforto, funcionalidade e respeitar a vontade expressa da paciente.
A retomada dos estudos representa um marco importante na jornada de Carolina Arruda, que busca equilibrar o enfrentamento de uma condição médica extremamente desafiadora com a concretização de seus objetivos acadêmicos e profissionais.
